Roda-gigante da Ponta Negra vira palco de disputa e confusão de versões
Equipamento privado instalado em área pública expõe conflito político, denúncias, resposta da prefeitura e a confusão entre responsabilidades municipais e estaduais em Manaus
A roda-gigante instalada no Complexo Turístico Ponta Negra, na zona Oeste de Manaus, deixou de ser apenas uma nova opção de lazer para se transformar no centro de uma disputa política e de narrativas públicas. Em poucos dias, o equipamento virou alvo de denúncias, vídeos nas redes sociais, matérias polêmicas e uma troca pública de acusações que expôs não só divergências políticas, mas, principalmente, a confusão da população sobre de quem é, afinal, a responsabilidade pela estrutura.
De um lado, surgiram acusações de suposta irregularidade na ligação de energia e risco à segurança. Do outro, a Prefeitura de Manaus respondeu oficialmente, esclarecendo que a roda-gigante não é uma obra pública municipal, mas sim um equipamento privado, autorizado a funcionar por meio de um Termo de Cessão de Uso Oneroso, modalidade prevista em legislação e utilizada desde 2011 no loca
O impasse levantou uma questão central: o que é fato, o que é disputa política e o que é desinformação?
O que é, de fato, a roda-gigante da Ponta Negra
De acordo com informações oficiais, a roda-gigante é operada por uma empresa particular que recebeu autorização para utilizar parte do espaço público por meio de cessão onerosa. Isso significa que:
- a estrutura não foi comprada pela prefeitura
- a empresa é responsável pela operação e manutenção
- o município cede o espaço e fiscaliza as normas de funcionamento
- há pagamento pelo uso da área pública
- a cobrança de ingressos não vai para os cofres da prefeitura, mas para a permissionária
Esse modelo de concessão é semelhante ao que já ocorre com quiosques, restaurantes e outros serviços existentes no complexo da Ponta Negra e em outros pontos turísticos de Manaus.
Portanto, a tentativa de associar a roda-gigante como uma “obra direta do prefeito” ou um “investimento público irregular” apresenta uma distorção dos fatos.
Denúncia de “gato” de energia e resposta oficial
A polêmica ganhou força após a divulgação de vídeos por um vereador, alegando que a roda-gigante estaria ligada de forma irregular à rede elétrica de um equipamento público. A denúncia, disseminada rapidamente pelas redes sociais, gerou pânico, indignação e desinformação.
Em resposta, a Prefeitura de Manaus afirmou que:
- a instalação está dentro dos padrões técnicos
- há laudo e processo administrativo
- a carga elétrica é compatível e autorizada
- o fornecimento de energia aos permissionários já está previsto na própria taxa de concessão
- não há confirmação oficial de ligação clandestina
A gestão municipal reforçou, ainda, que qualquer irregularidade só pode ser afirmada após laudo técnico independente e investigação formal, e não com base apenas em vídeos e declarações políticas.
Parada do equipamento e acusação de sabotagem
Outro episódio reforçou a controvérsia: a roda-gigante ficou parada por cerca de uma hora, em determinado momento, com pessoas nas cabines. Em pronunciamento, o prefeito David Almeida levantou a possibilidade de sabotagem, citando que a interrupção teria ocorrido justamente após a fiscalização informal e exposição pública da rede elétrica.
O caso, agora, deve ser apurado oficialmente para determinar se houve:
- falha técnica
- vandalismo
- manipulação intencional
- ou simples problema operacional
Até que a perícia seja concluída, qualquer afirmação definitiva sobre a causa da paralisação é, no mínimo, precipitada.
A árvore de Natal não é da Prefeitura — e isso precisa ser esclarecido
A confusão tomou proporção ainda maior quando parte da população passou a vincular a roda-gigante ao trágico acidente ocorrido no Centro de Manaus, durante a montagem de uma grande árvore natalina, quando um guindaste tombou e deixou vítimas.
É fundamental esclarecer:
✔ a árvore de Natal do Largo de São Sebastião é de responsabilidade do Governo do Estado do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura
✔ a roda-gigante da Ponta Negra é uma atração privada em espaço municipal, regulamentada por cessão de uso
✔ são projetos, locais e responsabilidades completamente distintas
Misturar os dois episódios é apagar a verdade factual e alimentar uma narrativa imprecisa – e perigosa.
O que está realmente em jogo
Mais do que um brinquedo, a roda-gigante se tornou símbolo de um embate maior:
o uso político do espaço urbano em meio ao cenário pré-eleitoral.
O episódio coloca em debate pontos importantes:
- transparência nas cessões públicas
- critérios de autorização
- fiscalização técnica constante
- responsabilidade das empresas
- limites do uso político e eleitoral das denúncias
Por outro lado, também revela como qualquer iniciativa ligada ao turismo, lazer ou requalificação urbana pode ser usada como campo de batalha ideológica, mesmo sem comprovação jurídica ou técnica.
Fato, não narrativa
A realidade é simples: há um equipamento privado instalado em área pública com autorização legal. Existem denúncias políticas que merecem investigação séria. Existe uma resposta oficial de que tudo foi feito dentro da legalidade. E existe um ambiente político profundamente contaminado por disputa e exposição.
O que a cidade precisa agora não é de versões, mas de transparência documental, laudos técnicos, clareza jurídica e responsabilidade de todos os lados.
Porque Manaus não pode virar palco de disputas em detrimento da verdade — nem permitir que o medo seja usado como ferramenta eleitoral.
A população merece informação correta.
E a cidade precisa avançar com responsabilidade, equilíbrio e respeito aos fatos.


