Vitórias e limites: o que a COP30 entregou — e o que ainda deve à Amazônia
Cúpula em Belém põe povos indígenas no centro do debate global, mas evita enfrentar os combustíveis fósseis de forma direta
Realizada em Belém, no coração da Amazônia, a COP30 foi mais do que uma conferência do clima: foi um gesto político global de reconhecimento da floresta como território estratégico para o futuro do planeta. Pela primeira vez, a Amazônia deixou de ser apenas cenário — e passou a ocupar o centro da narrativa climática internacional.
Entre os avanços mais celebrados está o fortalecimento do papel dos povos indígenas na governança ambiental. A demarcação de novas áreas protegidas, o reconhecimento dos territórios tradicionais como barreiras naturais contra o desmatamento e o compromisso de parte dos fundos climáticos ser direcionada diretamente às comunidades originárias representam uma mudança histórica — ainda que tardia — na forma como o mundo enxerga quem, de fato, protege a floresta em pé.
Também ganharam destaque os compromissos relacionados ao desmatamento zero e à chamada “transição justa”, que pela primeira vez assumem protagonismo em documentos vinculados à agenda amazônica. Mesmo sem força jurídica definitiva, essas diretrizes constroem um novo eixo político: o de que não há combate às mudanças climáticas sem povos, sem floresta e sem territórios preservados.
Mas é justamente onde deveria haver mais coragem que a COP30 mostrou seus limites.
O maior deles é a ausência de uma rota clara e vinculante para a eliminação dos combustíveis fósseis — principal causa da crise climática global. Ao evitar esse enfrentamento direto, a cúpula deixou de atacar o problema em sua origem. A conta permanece aberta — e continua sendo cobrada dos territórios mais vulneráveis, como a Amazônia, que sofre na linha de frente os impactos de um modelo econômico que não criou.
Outro ponto sensível é o financiamento climático. Apesar das promessas de ampliação dos recursos para adaptação e mitigação, ainda não está claro quem pagará essa conta, em quanto tempo e com quais critérios. A repetição de compromissos genéricos é velha conhecida das COPs — e a floresta já não pode viver apenas de intenções.
Mesmo assim, a COP30 representa uma inflexão importante.
Ao ser realizada em solo amazônico, ela fez o mundo olhar para o Norte do Brasil não como fronteira distante, mas como coração estratégico do planeta. A presença massiva de lideranças indígenas, juventudes periféricas, organizações comunitárias e movimentos sociais rompeu a lógica tradicional dos bastidores diplomáticos e colocou na mesa as vozes que historicamente foram silenciadas.
A Amazônia ganhou centralidade narrativa, política e simbólica. Mas segue diante de uma encruzilhada real: ou o mundo transforma o discurso em ação concreta — com metas, financiamento e mudança de modelo — ou a COP30 será lembrada apenas como a cúpula em que todos finalmente enxergaram a floresta… tarde demais.
O balanço, portanto, é ambíguo: há conquista, há avanço, há reconhecimento. Mas também há adiamento, cautela excessiva e uma perigosa falta de urgência diante de um planeta em colapso climático.
A COP30 abriu uma porta histórica. Agora, resta saber se o mundo terá a coragem de atravessá-la.
Valor Amazônico


