Da dor ao horizonte: a Colônia Antônio Aleixo que renasce pela fé e pela memória
Inspirado nas palavras do padre Gaston Gabriel, este texto revisita o passado de dor da Colônia Antônio Aleixo e ressignifica, pelos 75 anos da Paróquia Nossa Senhora das Graças, a entrega do monumento da Cruz Gloriosa como símbolo de resistência, fé e recomeço
Dora Tupinambá (*)
Entre a cruz e o rio, a Colônia Antônio Aleixo começa a escrever um dos capítulos mais profundos de sua própria reinvenção — não por uma agenda institucional, mas por uma narrativa que nasce da fé, da memória e da escuta sensível.
A centelha deste texto surgiu ao ouvir o padre Gaston Gabriel, pároco da comunidade, falar com ternura e coragem sobre as cicatrizes que atravessam gerações naquele território: a exclusão, a invisibilidade e o sofrimento impostos àqueles que ali foram isolados sob o estigma da hanseníase. Mas em suas palavras vibrava algo ainda maior do que a dor: a certeza de que aquele lugar, ferido por décadas, começa a ser finalmente ressignificado.
Não por apagamento do passado — mas por transformação.
Na primeira metade do século passado, esse pedaço de Manaus foi escolhido para ser um lugar de exílio. Homens, mulheres, mães e filhos separavam-se do mundo em nome de uma política sanitária cruel, que afastava pessoas em vez de acolhê-las. A Colônia tornou-se sinônimo de abandono e sofrimento. Mas, mesmo sob o peso do estigma, aquele povo encontrou formas de resistir, criar laços e semear esperança onde só havia silêncio.

E é dessa resistência silenciosa que agora brotam dois marcos profundamente simbólicos — um ligado ao horizonte das águas, outro enraizado na fé do próprio povo.
Quando a voz do padre acendeu a inspiração
Foi ouvindo o padre Gaston, em uma conversa carregada de memória e espiritualidade, que se revelou algo maior: a Colônia Antônio Aleixo não é apenas um lugar marcado pela dor, mas um território pronto para ser recontado sob outra luz.
Essa percepção não nasceu de um discurso institucional, mas de uma escuta humana e atenta. Da observação de que a fé, quando genuína, tem o poder de cuidar, de curar e de reconstruir narrativas inteiras.

É nesse espírito que a celebração dos 75 anos da Paróquia Nossa Senhora das Graças ganha um significado que supera o calendário religioso. Ela se transforma em um marco de transição simbólica: da exclusão ao reconhecimento, do sofrimento à memória honrada, do esquecimento ao pertencimento.
É justamente nesse contexto que será entregue à comunidade o projeto de revitalização da rotatória da Colônia Antônio Aleixo — um gesto que transcende a obra física para se tornar uma declaração de dignidade.
Um filho da Colônia esculpe a fé da própria terra
Quando chegou o momento de escolher quem daria forma ao monumento que marcaria os 75 anos da paróquia, a escolha poderia ter recaído sobre algum grande ateliê distante. Mas a inspiração foi outra: olhar para dentro.
E ali estava ele.
Luizinho.
Gari. Artista autodidata. Filho da Colônia Antônio Aleixo.
Sob sua sensibilidade, nasce uma obra marcada por três atos simbólicos e profundamente humanos:
De um lado, Cristo seguindo com a cruz sobre os ombros — a imagem do sofrimento.
Do outro, uma mãe acolhendo o filho nos braços — a dor universal da perda.
E ao centro, a Cruz Gloriosa — erguida como símbolo de vida, superação e esperança.
Luizinho não esculpiu apenas uma cena bíblica. Ele traduziu, em concreto e fé, a própria trajetória do seu povo: ferido, mas não vencido. Marginalizado, mas resistente. Silenciado, mas vivo.
É a fé da Colônia contando sua própria história.
Entre o rio e o céu, um novo horizonte
Previsto para ser inaugurado em junho de 2026, o Mirante Lúcia Almeida — projetado por Oscar Niemeyer — se erguerá sobre o talude do bairro como uma janela para o encontro das águas do rio Negro com o Solimões. Ali, arquitetura e natureza se entrelaçam para dizer ao mundo que aquela área não é margem: é centro, é visão, é potência.
De um lado, o mirante convida o mundo a olhar para a Amazônia.
De outro, a Cruz Gloriosa convida a Amazônia a olhar para dentro.
É como se a Colônia Antônio Aleixo, por tanto tempo invisibilizada, agora fosse recolocada no mapa emocional de Manaus e do Brasil — não pela dor que carrega, mas pela força do que representa.
A grandeza que sempre esteve ali
O encontro dos rios ensina que águas diferentes podem correr lado a lado, sem perder a própria identidade. Assim também é a Colônia Antônio Aleixo: marcada pelo sofrimento, mas moldada pela resistência; atravessada pela dor, mas guiada pela fé.
Quando a Cruz Gloriosa for entregue à comunidade, no contexto dos 75 anos da Paróquia Nossa Senhora das Graças, não será apenas mais um monumento. Será um gesto de reconciliação com a própria história. Uma resposta silenciosa a décadas de esquecimento. Um abraço tardio, mas necessário.
Talvez, então, o mundo perceba o que quem vive ali sempre soube.
A Colônia Antônio Aleixo nunca foi apenas dor.
Ela sempre foi grande.
Agora, enfim, começa a ser vista.
(*) Jornalista amazônida, fundadora do portal Valor Amazônico


