Maria do Carmo e o novo rosto da direita no Amazonas
Sem trajetória eleitoral, mas com discurso, capital simbólico e lastro familiar — a pré-candidata se coloca como peça-chave no rearranjo de 2026
A pré-candidatura de Maria do Carmo Seffair não surge como ato de vaidade ou ambição isolada. Ela simboliza o esvaziamento de um polo de poder — o bolsonarismo — e a urgência da direita amazonense em se reconstruir. Em um momento de transição nacional e local, seu nome desponta como aposta para recompor esse campo.
Maria do Carmo encarna uma figura híbrida neste xadrez político. Não é uma política tradicional, mas também não é uma outsider completa. Empresária da educação, mulher em um universo dominado por homens e ligada a um dos clãs mais antigos da política do Amazonas, ela combina discurso ideológico, capital simbólico e acesso a redes de influência raras para quem se lança pela primeira vez. Essa tríade a posiciona diretamente no centro do tabuleiro eleitoral estadual.
Busca por recomposição
Com a prisão de Jair Bolsonaro e seu afastamento da cena pública, a direita foi deixada órfã de uma liderança carismática. O impacto no Amazonas foi imediato. Apesar de não ter vencido o estado, Bolsonaro havia criado uma base orgânica: evangélicos, conservadores urbanos, setores ligados à segurança pública e parte da classe média. Esse eleitorado não desapareceu — ele apenas busca um novo porto.
Nesse espaço simbólico, Maria do Carmo tenta se firmar. Ela promete manter pautas conservadoras, mas com outra retórica: não de confronto, mas de “gestão com rosto humano”. A estratégia visa preservar a base, mas com menor desgaste institucional. Se bem feita, pode ampliar seu alcance além do núcleo radical; se falhar, corre o risco de se reduzir a um nicho restrito.
Vantagem estratégica, não passaporte
A relação de Maria do Carmo com a família Lins — reconhecida e histórica no interior do Amazonas — não define sua identidade política, mas oferece uma ponte de acesso importante.
Numa realidade em que muitos candidatos passam anos construindo redes, o sobrenome Lins pode abrir portas em municípios muitas vezes ignorados por campanhas concentradas na capital. Prefeitos, vereadores, lideranças locais — tudo isso pode facilitar articulações, apoios e mobilização territorial.
Mas atenção: esse é um ponto de apoio, não uma muleta. A candidata precisará construir sua própria narrativa, seu próprio discurso. Ser vista apenas como “herdeira de clã” pode ser uma sentença de curto prazo, especialmente entre eleitores que desejam renovação.
O grande teste
O maior desafio de Maria do Carmo será articular duas agendas, muitas vezes conflitantes: uma direita conservadora alinhada ao bolsonarismo; e a realidade amazônica — floresta, povos originários, bioeconomia, desigualdades históricas.
O Amazonas não é apenas um reduto eleitoral: é território estratégico para o futuro do planeta. Se ela se limitar a repetir o discurso nacionalista e conservador tradicional, sua candidatura será previsível — e restrita. Mas se souber incorporar a Amazônia como causa, defender uma agenda de desenvolvimento sustentável, combinada com justiça social, poderá ampliar seu espectro de apoio. Esse será o divisor de águas entre candidatura episódica e candidatura relevante.
Um símbolo de ruptura — e de desafio
Em um estado onde o poder sempre foi exercido majoritariamente por homens, a presença de Maria do Carmo representa algo inédito: a possibilidade de uma ruptura simbólica com o modelo tradicional.
Para muitas mulheres, ela pode representar representatividade real — esperança de que o governo reflita suas vozes, suas demandas, suas lutas. Esse é um ativo a seu favor.
Mas também marca um desafio: liderar em um ambiente político ainda hostil a vozes femininas independentes. A capacidade de resistir a pressões, de afirmar presença e de traduzir discurso em ação será determinante.
Novos pactos com do Amazonas
Maria do Carmo chega ao tabuleiro não apenas como pré-candidata, mas como teste de renovação da direita no Amazonas. Não basta buscar votos: será preciso conquistar confiança, demonstrar que entende o estado, suas urgências e suas potencialidades.
Se conseguir construir uma identidade própria — capaz de conciliar conservadorismo, sensibilidade social e projeto amazônico — pode se transformar em protagonista de uma nova fase política. Se não, corre o risco de ser apenas mais uma aposta rasa em um momento de turbulência.
A política lhe abriu uma porta.
O Amazonas decidirá, nos próximos anos, se ela está pronta para atravessá-la.
Da redação do Valor Amazônico


