PL testa novas lideranças e projeta futuro sem Bolsonaro
Com salário partidário suspenso e sem protagonismo institucional, ex-presidente deixa um vácuo que a direita tenta ocupar
Por Eulália Furtado – especial para o Valor Amazônico
Durante anos, Jair Bolsonaro não foi apenas um filiado do Partido Liberal (PL). Foi a sua imagem, a sua força de coesão, o seu discurso mobilizador. A legenda deixou de ser apenas uma sigla para se transformar em extensão de uma pessoa. Agora, com a suspensão do pagamento que recebia do partido e a interrupção de suas funções partidárias formais, um ciclo se encerra — e outro, ainda incerto, começa a ser escrito.
Não se trata apenas de um corte administrativo ou de uma medida interna do partido. O gesto tem peso simbólico e político: pela primeira vez desde 2018, o PL sinaliza que começa a aprender a respirar sem Bolsonaro. E, no mundo da política, onde lealdades duram enquanto são úteis, essa decisão aponta para o mais velho e implacável princípio do poder: rei morto, rei posto — ou, no mínimo, substituível.
Durante muito tempo, o “bolsonarismo” funcionou como cola, identidade e senha de acesso ao eleitorado conservador. Bateu panfletário? Sim. Mas também foi eficaz. Candidatos se elegeram, alianças se formaram, recursos circularam, bancadas cresceram. Tudo orbitava um nome. Agora, o centro de gravidade se move — e o PL parece ter compreendido que, sem novo protagonista, corre o risco de se tornar uma concha vazia.
Quando o mito sai de cena, sobra o partido
A suspensão do pagamento feito pelo PL a Bolsonaro — valor que simbolizava não só uma remuneração, mas uma posição de “honra”, influência e pertencimento — é, na prática, uma ruptura silenciosa. É o partido dizendo: seguimos com ou sem você.
Ao mesmo tempo, a legenda enfrenta um dilema: como manter a própria base sem o seu principal gerador de votos? Como preservar identidade, fidelidade e discurso sem o personagem que unificava tudo?
É nesse ponto que o jogo começa a ficar interessante — e perigoso.
Nos bastidores, o que se vê é movimentação, cautela e cálculo. Lideranças evitam declarações diretas, mas iniciam gestos de aproximação com novos quadros. A lógica é simples: quem ocupará o vácuo deixa de ser só candidato — passa a ser ativo político de alto valor.
Não é uma disputa por um nome. É uma disputa por um legado. E, mais que isso, por um público eleitoral órfão, mas ainda altamente mobilizável.
A nova direita será quem souber ocupar o silêncio
O bolsonarismo criou uma base fiel, barulhenta e engajada. Mas toda base precisa de liderança clara — e ela não pode existir apenas em memória, nostalgia ou radicalização digital.
Ao testar novas lideranças, o PL busca responder a uma pergunta central para 2026: a direita brasileira depende de um homem ou sobrevive como projeto de poder?
A resposta definirá o futuro do partido, mas também redesenhará o mapa político nacional — atingindo diretamente os estados, inclusive o Amazonas, que historicamente sofre os impactos das grandes reconfigurações políticas nacionais.
Se surgir uma liderança capaz de absorver essa base, o PL pode se reinventar. Se não, abre-se espaço para a fragmentação, para o surgimento de outros polos — ou para o esvaziamento gradual de uma força que um dia pareceu inabalável.
O cenário está posto:
Sem mito. Sem pedestal. Sem garantia.
Agora, é sobrevivência política em sua forma mais crua.
E, para quem observa de fora, uma certeza se impõe: a sucessão já começou.


