Transbordo expõe impacto do lixo irregular e reforça alerta ambiental em Manaus
Primeira operação de 2026 reúne mais de 400 toneladas recolhidas ao longo de janeiro na orla da capital
A primeira operação de transbordo de resíduos da orla de Manaus em 2026, realizada neste domingo (1º), trouxe à superfície um dado incômodo, mas recorrente: o peso do descarte irregular de lixo sobre o meio ambiente e sobre os cofres públicos. Mais de 400 toneladas de resíduos recolhidos ao longo do mês de janeiro foram finalmente encaminhadas ao aterro sanitário, em uma ação concentrada no Porto Trairi, na zona Oeste da capital.
A operação, executada pela Prefeitura de Manaus, por meio da Semulsp, mobilizou dezenas de máquinas, veículos e equipes por mais de seis horas. Três balsas abarrotadas de lixo revelaram, de forma visual e simbólica, o volume de resíduos acumulados antes da destinação final.
Mais do que um procedimento operacional, o transbordo funcionou como um retrato das consequências diretas do descarte inadequado, que transforma ruas, igarapés e a própria orla em vetores de degradação ambiental.
Do descarte urbano ao rio Negro
Segundo a Semulsp, a quase totalidade do lixo retirado da orla tem origem no descarte irregular em áreas urbanas. Com as chuvas, os resíduos são arrastados para os igarapés e acabam desaguando no rio Negro, ampliando os impactos ambientais e elevando os custos da limpeza pública.

O secretário municipal de Limpeza Urbana, Sabá Reis, destacou que o volume recolhido reflete um problema estrutural, que vai além da capacidade operacional do poder público.
“Estimamos que mais de 400 toneladas de lixo, resultado do descarte incorreto, representem um problema sério, que demonstra desrespeito com o meio ambiente e com o dinheiro público”, afirmou.
Janeiro marcado por limpeza intensiva
O transbordo deste domingo é resultado direto de um trabalho contínuo realizado ao longo de janeiro, período em que as equipes atuaram em pontos críticos da orla e em áreas de grande circulação. Entre os locais atendidos está a Praia da Ponta Branca, no bairro Educandos, espaço que passa por processo de revitalização e voltou a receber atenção especial das equipes de limpeza.
A retirada de grandes volumes de resíduos da praia integrou ações de manutenção urbana com o ordenamento do espaço público, em uma tentativa de devolver o local à convivência comunitária e reduzir a reincidência do descarte irregular.
Limpeza que vai além da área urbana
O esforço da Semulsp não se limita à malha urbana. A prefeitura mantém coleta regular em 25 comunidades rurais e seis comunidades indígenas, ao longo do rio Negro e de seus afluentes. Nessas áreas, o serviço é realizado por meio de balsas, que recolhem os resíduos e garantem a destinação correta, evitando que o lixo seja lançado diretamente no meio ambiente.
A logística complexa evidencia que a política de limpeza urbana em Manaus precisa lidar com desafios geográficos e sociais distintos, que exigem planejamento contínuo e alto custo operacional.
Ecobarreiras reduzem danos
Parte do enfrentamento ao lixo flutuante passa pela instalação de ecobarreiras em igarapés estratégicos. Essas estruturas funcionam como contenção física, impedindo que grandes volumes de resíduos cheguem ao rio Negro.
Em 2025, segundo dados da prefeitura, 3.495 toneladas de lixo foram retiradas do rio e dos igarapés urbanos. As 12 ecobarreiras em operação impediram que cerca de 2,5 mil toneladas alcançassem o rio, com média superior a 300 toneladas por mês retidas antes da dispersão nas águas.
Ainda assim, técnicos da área ambiental alertam que as ecobarreiras atuam apenas como mitigação. Sem mudança de comportamento da população, o problema tende a se repetir.
Governança ambiental em teste
Para a gestão municipal, o transbordo evidencia a necessidade de combinar operação, fiscalização e educação ambiental. Sabá Reis ressalta que o trabalho diário das equipes evita um cenário ainda mais crítico, graças ao empenho contínuo da administração.

“Esse resultado só é possível porque existe um esforço permanente da gestão. O prefeito David Almeida e o vice-prefeito Renato Junior têm garantido estrutura e prioridade para que a cidade seja cuidada todos os dias”, afirmou.
A primeira operação de transbordo de 2026, portanto, vai além do recolhimento de resíduos. Ela expõe um dilema central da capital amazônica: enquanto o poder público amplia sua capacidade de resposta, o desafio maior segue sendo a construção de uma cultura de descarte responsável, sem a qual nenhum volume de máquinas será suficiente.


