Hospital do Sangue ganha data, mas atraso histórico expõe fragilidade da gestão pública no Amazonas
Definição de inauguração no TCE-AM encerra incerteza, mas reabre debate sobre planejamento, controle e desperdício de recursos
Depois de mais de uma década de idas, vindas e paralisações, o Hospital do Sangue do Hemoam voltou ao centro da agenda pública do Amazonas — não por sua entrega efetiva à população, mas pela necessidade de uma intervenção institucional para que uma data, enfim, fosse estabelecida. Reunião realizada nesta terça-feira (10), na presidência do Tribunal de Contas do Amazonas, definiu o dia 28 de fevereiro como data de inauguração da unidade, com início das atividades previsto para 1º de março.
O encontro, convocado pela presidente do Tribunal, Yara Amazônia Lins, ocorreu após solicitação do deputado estadual Wilker Barreto, integrante do comitê de saúde da Assembleia Legislativa. O pedido escancarou um ponto sensível: foi preciso acionar o órgão de controle para que informações básicas sobre a situação da obra fossem consolidadas e um cronograma mínimo fosse apresentado.
O Hospital do Sangue não é um projeto recente. Idealizado em 2010, com obras iniciadas em 2014, o empreendimento sofreu paralisação em 2016 e só foi retomado anos depois, acumulando aditivos, ajustes e um custo estimado em cerca de R$ 70 milhões. Ainda assim, em 2026, a unidade segue sem funcionamento pleno, revelando um histórico de falhas de planejamento e de gestão continuada.
A diretora-presidente da Fundação Hemoam, Socorro Sampaio, classificou o hospital como “um grande sonho”, mas a própria linha do tempo apresentada evidencia o tamanho do problema: mais de dez anos entre concepção e entrega, em uma área sensível como a hemoterapia e a assistência hematológica.
Pronto, mas não pronto
Durante a reunião, a secretária de Estado de Saúde, Nayara Maksoud, afirmou que o hospital está fisicamente pronto, mas reconheceu que a obra não contemplava integralmente as condições necessárias para funcionamento. Segundo ela, intervenções adicionais foram necessárias, especialmente nas áreas elétrica e de climatização — um dado que levanta questionamentos sobre o projeto original e a fiscalização das etapas anteriores.
Também foi informado que o processo seletivo para formação das equipes começou apenas agora, às vésperas da inauguração, e que ainda está em curso um levantamento detalhado dos custos operacionais. Ou seja, mesmo com data definida, a estrutura entra na reta final ainda ajustando peças essenciais para sua sustentabilidade.
O papel do controle diante do atraso
Ao justificar a atuação do Tribunal, Yara Amazônia Lins destacou que o objetivo do TCE-AM é assegurar transparência, correta aplicação dos recursos públicos e acompanhamento efetivo da entrada em operação do hospital. A fala revela, de forma indireta, a dimensão do problema: sem a pressão do controle externo, a obra poderia continuar orbitando indefinições.
O deputado Wilker Barreto reforçou essa leitura ao afirmar que a definição de uma data é fundamental para que os órgãos de controle acompanhem a entrega e para que a população possa, finalmente, usufruir da estrutura. O fato de um parlamentar precisar intermediar esse alinhamento institucional evidencia o grau de desorganização que cercou o projeto ao longo dos anos.
Um avanço tardio, mas necessário
A fixação de um prazo é, sem dúvida, um avanço. Mas é um avanço tardio, que não apaga o histórico de atrasos, desperdícios potenciais e prejuízos indiretos à população que depende dos serviços do Hemoam. Cada ano de hospital fechado representou filas, limitações de atendimento e pressão sobre uma rede já sobrecarregada.
O Hospital do Sangue nasce, portanto, sob dois signos opostos: o da esperança de ampliação da capacidade de atendimento e o da necessidade de reflexão profunda sobre como obras públicas estratégicas são planejadas, executadas e acompanhadas no Amazonas.
Mais do que inaugurar, é preciso aprender
Se a inauguração se confirmar no prazo anunciado, o desafio seguinte será garantir funcionamento pleno, equipes estáveis, financiamento adequado e transparência permanente. Mas o episódio deixa uma lição que vai além do Hemoam: obras públicas não podem depender de cobranças tardias para sair do papel.
O controle precisa ser contínuo, o planejamento precisa ser técnico e o interesse público não pode esperar uma década para ser atendido.
Fotos: Filipe Jazz
DICOM TCE-AM


