IPAAM desmobiliza ocupação irregular e intensifica combate ao desmatamento urbano em Manaus
Operação integra força-tarefa ambiental para conter avanço desordenado na região metropolitana e reacende debate sobre moradia e planejamento urbano
A capital amazonense voltou a enfrentar, nesta quinta-feira (26), um de seus dilemas mais sensíveis: o avanço da ocupação irregular sobre áreas desmatadas na região metropolitana de Manaus. O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) realizou uma operação de desmobilização em área invadida, dentro de uma força-tarefa ambiental voltada à contenção do crescimento urbano desordenado.
A ação ocorreu em área já identificada como desmatada e sob monitoramento ambiental. Técnicos e fiscais atuaram na retirada de estruturas improvisadas e na interrupção da ocupação, reforçando a política estadual de enfrentamento a crimes ambientais em perímetro urbano.
A medida, no entanto, vai além de uma operação pontual. Ela expõe um conflito estrutural que se repete na capital: a tensão permanente entre preservação ambiental e demanda por moradia.
Manaus vive um ciclo de expansão acelerada nas zonas periféricas. O crescimento populacional, aliado à dificuldade de acesso à moradia formal e à escassez de políticas habitacionais robustas, tem impulsionado a ocupação de áreas ambientalmente sensíveis.
Terrenos próximos a igarapés, áreas de preservação permanente e fragmentos florestais tornaram-se alvos recorrentes de invasões. O desmatamento antecede a construção improvisada, criando um processo que rapidamente consolida novas comunidades em locais vulneráveis.

Esse padrão amplia riscos ambientais e sociais: degradação de nascentes, assoreamento de igarapés, aumento de enchentes e exposição de famílias a deslizamentos.
Fiscalização intensificada
A operação realizada pelo IPAAM integra uma estratégia mais ampla de monitoramento por satélite, denúncias comunitárias e atuação conjunta com outros órgãos de segurança e controle urbano.
O objetivo é conter a consolidação de ocupações antes que se tornem irreversíveis do ponto de vista territorial e ambiental.
Segundo técnicos da área ambiental, quanto mais cedo a intervenção ocorre, menor o impacto ecológico e menor o custo social da regularização ou remoção.
No entanto, o desafio é contínuo. A velocidade da ocupação muitas vezes supera a capacidade de resposta do poder público.
Moradia versus preservação
Especialistas em urbanismo e meio ambiente apontam que a solução não pode se limitar à repressão.
A ocupação irregular está, em grande parte, ligada à vulnerabilidade socioeconômica e à falta de oferta habitacional adequada. Sem políticas estruturantes de regularização fundiária, planejamento territorial e habitação popular, o ciclo tende a se repetir.
Manaus enfrenta o desafio de equilibrar dois direitos fundamentais: o direito à moradia e o direito ao meio ambiente equilibrado.
Nas grandes cidades amazônicas, esse conflito ganha dimensão ainda mais sensível por se tratar de áreas inseridas em um dos biomas mais estratégicos do planeta.
Desmatamento urbano e mudanças climáticas
O avanço sobre áreas verdes também agrava impactos climáticos. A retirada de cobertura vegetal reduz a permeabilidade do solo e aumenta a temperatura local, contribuindo para ilhas de calor e agravando alagamentos em períodos de chuva intensa.
A relação entre desmatamento urbano e eventos climáticos extremos tornou-se cada vez mais evidente.
Cada nova ocupação irregular consolidada em área de preservação amplia a vulnerabilidade coletiva.
O que está em jogo
A operação do IPAAM sinaliza endurecimento na fiscalização ambiental em perímetro urbano. Mas também levanta uma pergunta central: como evitar que novas ocupações surjam na mesma dinâmica?
Sem integração entre política ambiental, política urbana e política habitacional, o enfrentamento tende a ser reativo.
Manaus cresce. A floresta urbana encolhe. O equilíbrio entre desenvolvimento e preservação torna-se cada vez mais delicado.
A ação desta quinta-feira é um capítulo de um debate que está longe de terminar.


