DESTAQUEEDUCAÇÃO

Camilo Santana desembarca em Manaus enquanto 22 municípios do AM perdem R$ 3,5 bilhões do Fundeb

Visita do ministro da Educação à Ufam ocorre em meio à exclusão de cidades amazonenses da complementação federal por falhas em indicadores e gestão

A visita do ministro da Educação, Camilo Santana, a Manaus nesta quinta-feira (26) acontece sob dois cenários distintos. De um lado, a agenda oficial celebra inovação e retomada de obras na Universidade Federal do Amazonas (Ufam). De outro, 22 municípios amazonenses enfrentam a perda estimada de R$ 3,5 bilhões da complementação da União ao Fundeb em 2026 — um baque direto no financiamento da educação básica.

A programação ministerial começou às 16h30, com inspeção às obras da Faculdade de Letras e de Estudos Sociais e visita ao Laboratório de Robótica e Inteligência Artificial da Ufam. O gesto reforça o investimento federal na educação superior e na pesquisa tecnológica. Mas o momento também escancara um contraste: enquanto a universidade avança, parte da educação básica no estado sofre retração de recursos.

A perda bilionária que acende o alerta

O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) é a espinha dorsal do financiamento escolar no país. É dele que saem recursos para pagar professores, manter escolas, garantir merenda e transporte escolar.

A exclusão de 22 municípios amazonenses da complementação do tipo VAAR (Valor Aluno Ano por Resultado) ocorreu porque essas redes não atenderam aos critérios técnicos exigidos, como desempenho educacional, evolução de indicadores, equidade e participação nas avaliações nacionais.

Entre os municípios atingidos está Manaus.

A perda não é apenas contábil. É estrutural. Municípios que dependem fortemente da complementação federal terão menos margem para investimento e até para manutenção do funcionamento cotidiano das escolas.

O que levou à exclusão

Os dados mais recentes revelam um quadro preocupante. Levantamentos apresentados por órgãos de controle apontam que mais da metade dos municípios do Amazonas registrou queda nos índices de alfabetização entre 2023 e 2024. O estado também apresenta desempenho abaixo da média nacional em indicadores como Ideb e aprendizagem nos anos iniciais.

O VAAR, criado dentro do novo Fundeb, premia resultados. Ele exige não apenas matrícula, mas evolução. Exige gestão eficiente, monitoramento pedagógico e participação em avaliações oficiais.

Sem cumprir esses requisitos, o município perde a complementação.

A matemática é simples. A consequência, não.

TCE-AM entra em campo

Diante do impacto financeiro, o Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) lançou uma iniciativa para auxiliar os municípios a recuperar indicadores e voltar a se habilitar aos repasses federais.

O programa, que envolve acompanhamento técnico e articulação com a Secretaria de Estado de Educação, pretende ajudar as prefeituras a reorganizar dados, melhorar desempenho escolar e estruturar políticas públicas educacionais.

A medida é vista como uma resposta institucional ao risco de aprofundamento da crise.

Educação superior avança, base enfrenta turbulência

A presença do ministro na Ufam reforça o discurso de fortalecimento da pesquisa e da inovação tecnológica na região Norte. O laboratório de robótica e inteligência artificial simboliza um Amazonas que mira o futuro.

Mas esse futuro depende da base.

Sem alfabetização sólida, sem aprendizagem consistente nos primeiros anos e sem gestão educacional eficiente, a universidade continuará sendo destino para poucos.

O contraste entre os investimentos na educação superior e as dificuldades na educação básica coloca o estado diante de uma escolha estratégica: fortalecer apenas a ponta ou reorganizar o alicerce?

O que está em jogo

A perda de R$ 3,5 bilhões não representa apenas um ajuste orçamentário. Representa o risco de ampliação das desigualdades educacionais em um estado já marcado por distâncias geográficas e sociais profundas.

Sem recursos suficientes, redes municipais podem enfrentar restrição de investimentos pedagógicos; dificuldade para valorizar profissionais da educação;

limitação na ampliação de jornada escolar; atraso em programas de reforço e recuperação de aprendizagem.

A visita do ministro ocorre, portanto, em um momento decisivo. A educação amazonense precisa de diálogo técnico, correção de rumos e compromisso institucional — não apenas anúncios.

Entre o discurso e a realidade

O Amazonas vive uma encruzilhada educacional. De um lado, o discurso da inovação e da tecnologia. De outro, a necessidade urgente de recuperar indicadores básicos e garantir financiamento estável às redes municipais.

Se a agenda federal sinaliza atenção à infraestrutura universitária, o desafio agora é transformar a crise do Fundeb em oportunidade de reestruturação.

A pergunta que fica é direta: o estado conseguirá reverter os indicadores a tempo de recuperar os recursos — ou continuará assistindo à ampliação do abismo educacional?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pular para o conteúdo