BIOECONOMIADESTAQUE

Projeto Uxirana conecta jovens à floresta e valoriza o artesanato caboclo no Purus

Vivências Arte na Mata unem ciência e saber tradicional em trilhas da Flona do Purus

Por Juliana Belota – especial para o Valor Amazônico

Na imensidão verde da Floresta Nacional (FloNA) do Purus, no município de Pauini, o Projeto Uxirana: artesanato caboclo vem costurando conhecimento, identidade e sustentabilidade em uma experiência rara de imersão na floresta. Por meio da ação Vivências Arte na Mata, jovens, mestres da cultura popular e pesquisadores percorrem trilhas interpretativas para reconhecer espécies, compreender ecossistemas e fortalecer a relação ancestral entre povo e floresta.
Contemplado pelo Edital de Chamamento Público nº 13/2024 – Fomento à Execução de Ações Culturais de Cultura Popular, no âmbito da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), com apoio do Governo do Amazonas, por meio do Fundo Estadual de Cultura, o projeto estabelece uma ponte entre tradição, educação ambiental e geração de renda sustentável.

De acordo com a proponente e mestre artesã Arlete Maciel, as vivências são centradas no estudo tradicional de identificação, coleta, higienização e acondicionamento de sementes, fase fundamental para o beneficiamento que ocorrerá em etapa posterior, na oficina da Escola de Arte e Saberes Florestais Jardim da Natureza, localizada na comunidade Vila Céu do Mapiá, dentro da própria Flona.

“O objetivo é estudar árvores, palmeiras e cipós, mas com foco específico nas sementes trabalhadas no projeto. As aulas começam pela teoria, nos livros, e seguem para a prática em campo, quando os alunos passam a conhecer o habitat, a fenologia e a estrutura morfológica de cada espécie”, explica Arlete.
Nessas duas primeiras vivências, foram pesquisadas as sementes da Uxirana (Vantanea parviflora) e do Marajá Mirim (Bactris maraja). O aprendizado vai além do reconhecimento da planta: os participantes aprendem a localizar os ambientes com maior incidência, identificando se a espécie está à montante ou à jusante do igarapé, em terra firme, várzea ou charco.

“Quando começamos a trabalhar a semente no artesanato, os alunos já estão conectados com toda a caracterização da paisagem. Eles sabem onde encontrar e como respeitar o ciclo daquela planta”, destaca.

A parceria entre oficineiros e mateiros

Para a produtora executiva do projeto, Bianca Squarisi, o maior valor das vivências está na integração entre os oficineiros e os mateiros da comunidade, guardiões de um conhecimento acumulado por gerações.
“Essa parceria é essencial para o artesanato e para o aprendizado. Todos os alunos participam e, além deles, convidamos outros mestres e visitantes. É nesse espaço que se aprende a pensar a sustentabilidade e a respeitar a floresta”, afirma.

As trilhas interpretativas contaram também com a participação de cientistas e ambientalistas, como o engenheiro florestal João Coutinho, diretor de produção madeireira do manejo comunitário da Flona do Purus, realizado pela Cooperativa Agroextrativista do Mapiá e Médio Purus (Cooperar).
“As vivências acontecem em um verdadeiro laboratório vivo, a Escola de Arte e Saberes Florestais Jardim da Natureza, que acaba de ganhar o status de Escola Livre do Ministério da Cultura. O somatório de conhecimentos é enorme: os jovens observam as espécies em seus habitats e compreendem como elas se associam dentro do ecossistema”, ressalta Coutinho.

Além do reconhecimento das árvores e frutos, são analisadas particularidades do tronco, das folhas, do processo de maturação e da queda da semente, quando ocorre a coleta manejada e consciente.

Um ciclo que revela a força da floresta em pé

Para Coutinho, o projeto vai muito além da produção de artesanato. As peças produzidas com resíduos florestais evidenciam a importância de manter a floresta viva e funcional.

“É na integração entre fauna, flora, recursos hídricos e florestais que entendemos que tudo está interligado. O Projeto Uxirana fala de preservação, biodiversidade e da capacidade produtiva sustentável da floresta”, reflete.

Essa abordagem fortalece cadeias produtivas de baixo impacto ambiental e amplia o entendimento de que desenvolvimento e conservação podem caminhar juntos, especialmente quando a comunidade local assume o protagonismo.

Primeira aparição da Mãe de Lua na vivência

Durante uma das Vivências Arte na Mata, um encontro simbólico marcou os participantes: o registro inédito do pássaro conhecido como Mãe de Lua (Urutau ferrugem) nas proximidades do roçado geral da comunidade.

O avistamento foi feito pela aluna e pesquisadora Mariana Arruda, integrante do manejo florestal comunitário desde 2019, após a ave ser percebida por Bianca Squarisi. Mariana atua também no inventário da avifauna local, em parceria com o ICMBio e a Cooperar.

Até o momento, 356 espécies diferentes de aves já foram registradas na Flona do Purus, muitas delas fotografadas e catalogadas. Esses registros deram origem ao livro “Passarinho Verde: Aves da Flona do Purus”, organizado por Clézio Kleske, com fotografias de Pedro Adnet e participação de mestres do conhecimento tradicional, como Olímpio Mendes, Damião Rocha e Maria Mota.


As informações foram incluídas no SISBIO (ICMBio) e disponibilizadas também em plataformas especializadas de observação de aves, ampliando o potencial da região para o turismo científico e de base comunitária.

Floresta como escola, museu e futuro

A Escola de Arte e Saberes Florestais Jardim da Natureza desponta agora como um polo formativo estratégico para novas ações voltadas à economia criativa, educação ambiental, bioeconomia e turismo sustentável.

O Projeto Uxirana se consolida, assim, como um exemplo vivo de que a floresta, quando respeitada, se transforma em escola, sustento, memória e futuro.

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