No coração do Amazonas, açaí vira estratégia de desenvolvimento
Iniciativa será implantada em Tapauá para enfrentar informalidade, reduzir perdas e ampliar renda de comunidades ribeirinhas
Idealizado para enfrentar gargalos históricos da cadeia do açaí no interior do Amazonas, o Projeto Euterpe Viva será implantado em Tapauá, município localizado a 541 quilômetros de Manaus, na calha do rio Purus. A iniciativa nasce para resolver desafios enfrentados pelas comunidades locais, onde o açaí é abundante e culturalmente central, mas ainda explorado de forma informal, com perdas pós-colheita, baixa agregação de valor e forte dependência de atravessadores.
Executado pela Associação Centro de Sementes Nativas do Amazonas (CSNAM), o projeto conta com apoio da iniciativa Juntos pela Amazônia (JPA), fundo colaborativo do Grupo +Unidos, que conecta empresas e organizações para investir em projetos estratégicos na Amazônia Legal. O foco é estruturar a produção comunitária e fortalecer a bioeconomia como caminho para geração de renda e conservação da floresta.
Ações práticas na ponta
O Euterpe Viva entra em fase de implantação com medidas concretas. Entre elas estão o inventário e georreferenciamento dos açaizais nativos, a capacitação de cerca de 40 extrativistas, com prioridade para mulheres e jovens, além da implantação de uma usina comunitária de beneficiamento do açaí, adequada às normas sanitárias.

A expectativa é reduzir em pelo menos 30% as perdas pós-colheita e elevar em média 25% a renda das famílias diretamente envolvidas na produção. O projeto também pretende inserir o chamado “Açaí da Floresta” em mercados institucionais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), por meio da criação de uma marca comunitária.
Bioeconomia como estratégia
A iniciativa dialoga diretamente com a agenda da bioeconomia amazônica, ao transformar um produto tradicional em vetor de desenvolvimento sustentável. O modelo aposta no fortalecimento da gestão comunitária, no uso responsável dos recursos naturais e na valorização do conhecimento tradicional aliado à ciência.
O projeto conta com parcerias estratégicas da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA), que contribuem com conhecimento técnico, pesquisa aplicada e inovação para aprimorar a cadeia produtiva.
Realidade social reforça urgência
Dados do IBGE evidenciam o cenário socioeconômico de Tapauá. Apenas 9,91% da população local possui emprego formal, enquanto mais da metade vive com renda de até meio salário-mínimo por pessoa. A baixa estrutura produtiva limita o potencial de geração de renda, apesar da abundância de recursos naturais.
Nesse contexto, o Euterpe Viva surge como alternativa concreta para promover segurança alimentar, autonomia produtiva e inclusão econômica.
Modelo replicável para a Amazônia
Para o doutor em Ciências de Florestas Tropicais e coordenador do projeto, Valdiek Menezes, a proposta responde a uma lacuna histórica.
“Tapauá é uma das áreas que mais concentram a produção de açaí na Amazônia, mas essa cadeia ainda não é estruturada. Isso gera perda de valor e do potencial do produto. A partir do Euterpe Viva vamos elevar o nível de organização e tecnologia dessa cadeia que já existe, complementando a renda dos agricultores familiares e garantindo segurança alimentar para as comunidades”, afirma.
Idealizado por uma equipe multidisciplinar formada por pesquisadores e técnicos com atuação na Amazônia, o projeto busca consolidar um modelo de gestão comunitária autônomo, sustentável e replicável em outros territórios do estado.
Floresta em pé, economia viva
Ao fortalecer o protagonismo comunitário e valorizar um dos produtos mais emblemáticos da floresta, o Projeto Euterpe Viva reforça que conservar a Amazônia e gerar renda não são caminhos opostos, mas complementares.
A iniciativa contribui para posicionar o Amazonas como referência em bioeconomia, mostrando que o desenvolvimento sustentável pode partir da própria floresta, com respeito ao território, às pessoas e à cultura local.
Imagens: Edilson Seabra Pereira


