Amazonas entra na corrida de 2026 com alianças improváveis e chapas indefinidas
De Amon com Silas à indefinição de Roberto Cidade, articulações expõem disputa fragmentada, sobreposição na direita e risco de candidaturas se anularem
O prazo da janela partidária, que se encerra em 4 de abril, acelerou movimentos que já vinham sendo desenhados nos bastidores e escancarou um traço marcante da eleição de 2026 no Amazonas: a política entrou em campo antes de se organizar.
O resultado é um cenário incomum, em que alianças são firmadas sem clareza estratégica, lideranças disputam o mesmo espaço eleitoral e partidos ainda não sabem exatamente qual será sua posição no jogo majoritário. Mais do que divergências ideológicas, o que se vê é uma disputa guiada por sobrevivência política.
Nesse contexto, três movimentos ajudam a entender o momento: a fragmentação do campo conservador, a aliança entre Amon Mandel e Silas Câmara e a indefinição da federação entre União Brasil e Progressistas, que impacta diretamente o projeto de Roberto Cidade ao Senado.
Direita dividida abre espaço para David Almeida
A consolidação da pré-candidatura de David Almeida ao Governo do Amazonas alterou o equilíbrio da disputa. Com base eleitoral sólida na capital e desempenho crescente nas pesquisas recentes, o prefeito passou a ocupar um espaço que antes estava mais claramente dividido entre grupos tradicionais.
Esse movimento tensiona especialmente o campo conservador. De um lado, o governador Wilson Lima reforça seu alinhamento com o eleitorado bolsonarista. De outro, a empresária Maria do Carmo Seffair também se posiciona nesse mesmo espectro.
O problema é evidente: há mais de uma candidatura disputando o mesmo eleitor.
Essa sobreposição tende a fragmentar votos no primeiro turno e dificulta a construção de uma unidade precoce. Nesse cenário, David se beneficia ao operar com maior flexibilidade política, dialogando com diferentes segmentos sem assumir uma identidade ideológica rígida.
Amon e Silas: uma aliança que nasce em conflito
Se no campo majoritário a disputa é difusa, na proporcional ela revela movimentos ainda mais contraditórios.
A entrada de Amon Mandel no Republicanos de Silas Câmara chama atenção não apenas pela diferença de perfil entre os dois, mas principalmente pela lógica eleitoral da decisão.
Amon construiu sua trajetória recente como um nome jovem, com discurso de renovação política. Silas, por outro lado, representa uma liderança consolidada, com forte base evangélica e décadas de atuação no Congresso.
Mas o ponto mais crítico está no cálculo: ambos devem disputar a reeleição para deputado federal pela mesma legenda e a projeção é de que o partido conquiste apenas uma cadeira
Na prática, isso significa que um pode inviabilizar o outro — ou ambos podem sair enfraquecidos.
A aliança, portanto, não é de soma, mas de risco. Ela evidencia um cenário em que o acesso à estrutura partidária pesa mais do que a coerência política ou a viabilidade coletiva.
Roberto Cidade e a federação sem rumo definido
Outro exemplo de desalinhamento estratégico envolve Roberto Cidade.
Apontado como pré-candidato ao Senado, Cidade enfrenta uma indefinição central: não há, até o momento, clareza sobre qual será a chapa majoritária da federação formada por União Brasil e Progressistas no Amazonas.
A federação obriga atuação conjunta, mas ainda não resolveu questões fundamentais:
Quem será o candidato ao governo
Como será distribuído o protagonismo entre os partidos
E qual será o desenho final da chapa
Nesse contexto, a pré-candidatura ao Senado avança sem um palanque definido, elemento essencial.
Isso gera um impasse político relevante. Sem um nome consolidado ao governo, o projeto de Cidade corre o risco de ficar isolado ou depender de decisões que ainda estão em aberto dentro da própria federação.
Alianças defensivas e ausência de coordenação
Apesar de distintos, os movimentos analisados têm um ponto em comum: todos são reativos, não estruturantes: Amon busca abrigo partidário, mesmo em cenário competitivo interno; Silas preserva sua estrutura política; Cidade se posiciona antes da definição da chapa; Wilson mantém seu campo, mas enfrenta divisão; Maria do Carmo sustenta candidatura própria; David avança ocupando o espaço aberto.
O resultado é um ambiente político em que ninguém quer sair do jogo — mesmo que isso signifique disputar espaço com aliados circunstanciais ou dividir o próprio eleitorado.
Eleição aberta e risco de autossabotagem política
O Amazonas chega à pré-campanha de 2026 sem um eixo consolidado. As alianças ainda não refletem projetos fechados, mas sim movimentações de posicionamento.
Esse tipo de cenário tende a se reorganizar até as convenções. No entanto, há um risco claro no horizonte:
👉 candidaturas competitivas podem se neutralizar dentro do próprio campo político
Se isso ocorrer, o resultado da eleição pode ser definido menos pela força de um projeto e mais pelos erros de articulação dos adversários.
Até lá, o eleitor assiste a um jogo em que alianças improváveis deixam de ser exceção — e passam a ser regra.
Foto:IlustraçãoIA


