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Pacientes com câncer morrem à espera de tratamento em Manaus

Defensoria identifica 23 pacientes sem atendimento oncológico especializado, incluindo duas crianças, e aciona a Justiça para cobrar providências do Governo do Amazonas

A espera por tratamento contra o câncer terminou em morte para dois pacientes internados em hospitais públicos de Manaus. Eles estavam entre as pessoas que aguardavam transferência para atendimento especializado na Fundação Centro de Controle de Oncologia do Amazonas (FCecon). Os casos integram um levantamento da Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM), que identificou pelo menos 23 pacientes com diagnóstico ou suspeita da doença sem acesso adequado à assistência oncológica.

A gravidade da situação levou a Defensoria a ingressar com uma Ação Civil Pública contra o Governo do Amazonas e a FCecon, cobrando medidas imediatas para garantir diagnóstico, tratamento e acompanhamento especializado.

O problema vai além da demora por uma vaga hospitalar. Segundo a instituição, pacientes permanecem internados por semanas em unidades de urgência e emergência que não dispõem de estrutura específica para o tratamento do câncer. Em alguns casos, a espera já ultrapassa 30 dias, sem definição diagnóstica ou plano terapêutico.

Entre as situações identificadas está a de um homem de 41 anos, internado desde 5 de setembro, ainda sem definição do tratamento. O levantamento também encontrou duas crianças, de apenas 1 e 3 anos, sem previsão de início da assistência especializada.

Os casos foram registrados nos hospitais e prontos-socorros Platão Araújo, 28 de Agosto e João Lúcio.

Alta não significa acesso ao tratamento

Um dos pontos mais preocupantes do levantamento é a situação de pacientes que deixam os hospitais sem garantia de continuidade da assistência.

No Platão Araújo e no 28 de Agosto, dez pessoas receberam alta ou tiveram alta programada com encaminhamento para acompanhamento ambulatorial. Outra foi direcionada a um leito de retaguarda.

Entretanto, conforme as informações reunidas pela Defensoria, nenhuma das respostas apresentadas pelas unidades registrou o início do tratamento oncológico durante a internação.

Para a instituição, encaminhar um paciente ao ambulatório sem consulta agendada ou definição sobre os próximos procedimentos não resolve o problema. Na prática, a espera pode apenas mudar de lugar.

O defensor público Arlindo Gonçalves, coordenador do Núcleo de Defesa da Saúde (Nudesa), afirma que as dificuldades incluem desde o acesso à quimioterapia e às cirurgias até a realização de biópsias e outros exames indispensáveis ao diagnóstico.

A permanência prolongada em hospitais sem suporte oncológico também preocupa pela possibilidade de agravamento dos quadros clínicos. Sem equipes especializadas, protocolos próprios e fluxo definido de atendimento, o paciente pode enfrentar novas complicações enquanto aguarda assistência.

Justiça nega liminar

Diante dos casos identificados, a Defensoria ajuizou a ação durante o plantão forense do fim de semana, solicitando uma decisão urgente para assegurar o início da assistência indicada a cada paciente.

O pedido contempla desde a conclusão de diagnósticos até tratamentos curativos e cuidados paliativos, conforme a necessidade clínica.

A instituição também quer que o Estado apresente um plano de gestão da rede de atenção oncológica, capaz de evitar que pacientes continuem internados em prontos-socorros sem perspectiva de atendimento especializado.

Apesar da urgência alegada, o pedido de liminar foi negado durante o plantão. O processo seguirá para análise do juízo competente, que deverá examinar as demandas apresentadas pela Defensoria.

A decisão não encerra a ação nem representa uma conclusão definitiva sobre as falhas denunciadas.

Os dois óbitos identificados tornam o caso especialmente grave, mas o material divulgado não estabelece que a demora tenha sido a causa direta das mortes. Essa relação dependeria de avaliação clínica e apuração específica.

A situação expõe uma questão essencial para a saúde pública amazonense: no tratamento do câncer, não basta ter uma rede de referência. É preciso garantir que o paciente consiga chegar a ela em tempo adequado.

Enquanto o processo tramita, a Defensoria orienta pacientes e familiares que enfrentam dificuldades para conseguir exames, consultas, quimioterapia ou outros procedimentos a procurar o Nudesa.

O atendimento ocorre na rua Barroso, nº 267, Centro de Manaus, de segunda a sexta-feira, das 8h às 14h.

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