Jaraqui da Gente fortalece política de segurança alimentar em Manaus
Programa da Prefeitura de Manaus amplia o acesso ao pescado para famílias vulneráveis e associa proteção social à valorização da alimentação regional
Em uma região onde o peixe ocupa lugar central na alimentação, na economia e na cultura, garantir que esse alimento chegue à mesa das famílias mais vulneráveis também é uma questão de cidadania. É nessa perspectiva que o programa Jaraqui da Gente, desenvolvido pela Prefeitura de Manaus, se apresenta como uma iniciativa de segurança alimentar, ao associar a distribuição de pescado à política municipal de assistência social.
Na quinta-feira (15), a ação alcançou mais cerca de 4,5 mil famílias dos bairros Armando Mendes, Zumbi e São José Operário, na zona Leste da capital. Ao todo, foram distribuídos 70 mil peixes pela Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc).
Mais do que os números, a iniciativa chama atenção para uma realidade que nem sempre é percebida: viver na Amazônia, cercada por rios e reconhecida pela abundância de recursos naturais, não significa necessariamente ter acesso regular aos alimentos que fazem parte da própria cultura regional.
Para famílias de baixa renda, o preço do pescado pode representar uma barreira ao consumo, mesmo em uma cidade onde o peixe é um dos alimentos mais tradicionais.

Segurança alimentar além da distribuição
A segurança alimentar pressupõe que todas as pessoas tenham acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer outras necessidades essenciais.
Nesse contexto, o Jaraqui da Gente atua sobre uma das consequências mais imediatas da vulnerabilidade social: a dificuldade de colocar comida na mesa.
Ao disponibilizar pescado gratuitamente, o município contribui para complementar a alimentação das famílias atendidas e reduzir, ainda que temporariamente, a pressão sobre o orçamento doméstico.

A importância social da iniciativa está justamente nessa relação entre alimentação e renda. Quando os recursos financeiros são insuficientes, a compra de alimentos passa a disputar espaço com despesas como energia elétrica, transporte, medicamentos e moradia.
A diretora de Segurança Alimentar da Semasc, Juliana Dib, destaca que alcançar diferentes regiões da cidade é fundamental para ampliar a proteção às famílias em situação de vulnerabilidade.
“A alimentação é uma das primeiras necessidades afetadas em situações de vulnerabilidade social. Por isso, é importante alcançar o maior número possível de pessoas em diferentes zonas da cidade, oferecendo um alimento que faz parte da nossa região e da nossa cultura”, afirmou.
Um programa conectado à realidade amazônica
Outro aspecto que diferencia o Jaraqui da Gente é a utilização de um alimento associado à identidade regional.
O peixe integra a culinária amazonense, está presente nas refeições familiares e movimenta atividades econômicas ligadas à pesca e à comercialização do pescado.

Ao incorporar esse alimento às ações de segurança alimentar, a Prefeitura de Manaus aproxima a política pública dos hábitos e das referências culturais da população atendida.
Essa característica é especialmente importante porque o direito à alimentação adequada não se limita à quantidade de comida disponível. Também envolve qualidade, respeito aos costumes alimentares e condições dignas de acesso.
No bairro São José Operário, a moradora Neuza Maria resumiu o significado concreto da iniciativa para quem enfrenta dificuldades financeiras.
“Não temos condições de gastar entre R$ 40 e R$ 50 com peixe. Por isso, receber esse alimento é motivo de muita alegria para nós”, relatou.
O depoimento evidencia uma contradição da realidade amazônica: um alimento culturalmente próximo da população pode se tornar economicamente distante de parte dela.

Proteção social e continuidade
A distribuição realizada nos três bairros da zona Leste demonstra a capacidade de mobilização do programa para alcançar milhares de famílias em uma única ação.
Entretanto, o enfrentamento da insegurança alimentar exige mais do que respostas emergenciais. Depende da continuidade das políticas públicas, da identificação das famílias em maior vulnerabilidade e da articulação entre assistência social, saúde, educação e geração de renda.
Nesse sentido, iniciativas como o Jaraqui da Gente têm relevância por integrar o esforço de proteção social do município, embora a entrega pontual de alimentos não substitua medidas capazes de garantir acesso regular e permanente à alimentação.

A experiência também reforça a necessidade de considerar as particularidades amazônicas na formulação das políticas públicas. Em Manaus, combater a insegurança alimentar significa enfrentar desigualdades urbanas sem desconsiderar os hábitos culturais e as condições econômicas da população.
Ao levar 70 mil peixes a aproximadamente 4,5 mil famílias, a Prefeitura de Manaus oferece uma resposta concreta a uma necessidade imediata. O desafio, para além de cada distribuição, é consolidar a segurança alimentar como compromisso permanente da gestão pública, transformando o acesso à alimentação adequada em uma garantia cada vez mais presente na vida dos manauaras.
Fotos – Valdo Leão, João Vianna e Ariele Lorena/ Semcom


