DESTAQUEPOLÍTICA

Eleições no Amazonas entram no radar da União Europeia

Especialistas internacionais conhecem desafios da votação em comunidades isoladas, operações com helicópteros e tecnologias utilizadas na transmissão dos resultados

Realizar eleições em um território onde rios funcionam como estradas, comunidades ficam a centenas de quilômetros dos centros urbanos e a estiagem pode dificultar o transporte de pessoas e equipamentos é um desafio que chama a atenção internacional. Essa realidade amazônica entrou na agenda da Missão de Especialistas Eleitorais da União Europeia, que esteve em Manaus nesta terça-feira (20) para conhecer a organização das Eleições Gerais de 2026 no estado.

Recebidas pela presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), desembargadora Carla Reis, as especialistas Tânia Marques e Mercè Castells tiveram acesso a informações sobre a logística eleitoral, a segurança das urnas eletrônicas e os mecanismos utilizados para garantir a votação e a transmissão dos resultados nas regiões mais distantes.

A missão está no Brasil a convite do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e acompanha diferentes etapas do processo eleitoral brasileiro. O trabalho inclui a coleta de informações e a análise dos procedimentos adotados pela Justiça Eleitoral, considerando a legislação nacional e os compromissos internacionais relacionados às eleições democráticas.

No Amazonas, a dimensão territorial e as dificuldades de deslocamento acrescentam desafios que nem sempre estão presentes em outras regiões do país.

Complexa operação na Amazônia

Com o segundo turno marcado para domingo (25), a Justiça Eleitoral amazonense já iniciou o transporte de urnas para localidades de difícil acesso. Desde segunda-feira (19), helicópteros são utilizados na distribuição de equipamentos destinados a comunidades onde as condições geográficas tornam mais complexo o deslocamento das equipes.

A operação também precisa considerar os efeitos da estiagem, que reduz o nível dos rios e pode comprometer rotas normalmente utilizadas por embarcações.

Para a presidente do TRE-AM, Carla Reis, assegurar o direito ao voto em todo o estado exige planejamento específico e capacidade de adaptação.

“Realizar eleições no Amazonas exige planejamento e um olhar atento às particularidades de cada região. Aqui, as extensões territoriais são enormes, e chegar às comunidades mais distantes exige uma complexa operação logística”, afirmou.

A desembargadora também destacou que as longas distâncias, a seca e as altas temperaturas impõem dificuldades adicionais aos servidores e colaboradores envolvidos na organização do pleito.

O desafio é garantir que eleitores de comunidades remotas tenham condições de participar da votação, independentemente das dificuldades de acesso às localidades onde vivem.

Tecnologia aproxima comunidades da apuração

Outro aspecto apresentado às especialistas europeias foi a estrutura utilizada para transmitir os resultados das urnas eletrônicas.

Segundo os dados expostos pelo TRE-AM, dos 700 locais de votação em comunidades rurais considerados na operação, 350 contam com transmissão via satélite. Nos demais, as mídias contendo os resultados precisam ser transportadas até pontos de transmissão, com deslocamento estimado em até duas horas.

Para ampliar essa capacidade, a Justiça Eleitoral amazonense anunciou a utilização de 420 antenas Starlink Mini em 2026, destinadas a melhorar a conectividade em regiões de difícil acesso. A tecnologia permite transmitir informações sem depender exclusivamente das estruturas terrestres de comunicação.

Em um estado onde o transporte fluvial é parte essencial da mobilidade, a comunicação por satélite representa uma alternativa importante para reduzir atrasos no envio dos boletins de urna.

Durante a reunião, também foram apresentados os procedimentos do Teste de Integridade das Urnas Eletrônicas, mecanismo de auditoria destinado a verificar se os equipamentos registram corretamente os votos.

A explicação desses procedimentos integra o esforço de transparência da Justiça Eleitoral e permite que observadores internacionais conheçam os mecanismos de fiscalização utilizados no Brasil.

Olhar internacional sobre as eleições brasileiras

A presença da União Europeia no Amazonas faz parte de uma agenda mais ampla de acompanhamento das eleições de 2026.

A missão reúne especialistas em diferentes áreas e mantém contato com autoridades eleitorais, partidos políticos, instituições públicas e organizações da sociedade civil.

Além dos procedimentos de votação e apuração, a análise internacional considera aspectos como legislação eleitoral, administração do processo, campanhas, tecnologia e desinformação.

Esse acompanhamento não substitui as atribuições da Justiça Eleitoral brasileira nem representa interferência na condução do pleito. A proposta é produzir uma avaliação técnica independente, a partir de informações coletadas ao longo do processo.

A participação da União Europeia ocorre em um contexto de cooperação internacional em que o Brasil também recebe outras missões de observação, incluindo representantes da Organização dos Estados Americanos (OEA) e de instituições eleitorais de diferentes continentes.

Com permanência prevista no país até novembro, a missão europeia deverá reunir os resultados de suas análises em um relatório sobre as eleições brasileiras.

No Amazonas, a visita evidencia uma particularidade frequentemente pouco percebida fora da região: garantir o exercício do voto exige muito mais do que instalar urnas eletrônicas.

Significa superar distâncias, enfrentar condições climáticas adversas, mobilizar diferentes meios de transporte e assegurar que comunidades isoladas também participem das decisões políticas do país.

Em um território de dimensões continentais, a logística eleitoral não é apenas uma questão operacional. É parte fundamental da garantia do direito à participação democrática.

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