Mercado de trabalho brasileiro tem desigualdades de raça, cor e gênero, diz ativista do movimento negro no Amazonas

Levantamento do Dieese, mostra que 44% das mulheres negras trabalham na informalidade, sem carteira assinada e, quando na formalidade, recebem salários menores que homens e negros

No Dia da Consciência Negra, data que é uma referência à morte de Zumbi dos Palmares (1655-1695), considerado o último líder do maior quilombo do período colonial e símbolo da luta pela liberdade do povo afro-brasileiro, o Valor Amazônico convidou Raquel Cardoso, 27, que compõe o Coletivo Ponta de Lança, do Fórum de Mulheres Afroameríndias e Caribenhas e o Núcleo de Base de Pretos, Pretas e Povos de Terreiro, ao analisar os dados da pesquisa realizada pelo  Departamento Intersindical e Estudos Socioeconômicos (Dieese) sobre a inserção da população negra no mercado de trabalho brasileiro.

Na opinião dela, os dados mostram, claramente, a desigualdade de raça, cor e gênero que existe no Brasil.  Raquel Cardoso, que é formada em Letras, afirma que é fácil perceber, ligando todos os pontos, como a mulher negra é colocada como base nesse processo de desigualdade, no qual ela sempre vai ser doméstica ou trabalhar na informalidade, com renda mínima, por não conseguir se inserir no emprego regular, dados os impedimentos que marcaram sua vida.

“Há um conceito construído de que esse cidadão está para servir e não para demandar ou coordenar”, argumenta a integrante do Fórum de Mulheres Negras, lembrando que concorre para isso também o impedimento do acesso à educação, cultura e profissionalização.

A mesma pesquisa aponta que mulheres negras têm renda menor que as brancas, num índice maior que a diferença entre os salários dos homens brancos e negros. Enquanto as mulheres negras ganham em média R$ 1.573, as não negras obtiveram ganhos de até R$ 2.660. Já os homens negros alcançaram renda de até R$ 1.950, contra R$ 3.484 dos homens brancos, no segundo trimestre deste ano.

E quando há necessidade de demitir, as trabalhadoras negras são as primeiras demitidas. O estudo do Dieese constatou 40,5% de subutilização da força de trabalho das mulheres negras, enquanto dos homens negros esse índice cai para 29,4%. Se comparado a mulheres não negras, a subutilização é de 26,4%, enquanto dos homens não negros é de 19,1%.

Ainda de acordo com o estudo do Dieese, 44% das mulheres negras trabalha sem carteira assinada e, portanto, não contribui para a previdência social. Esse percentual é maior quando se refere aos homens negros, alcançando a taxa de 45%.

Ao destacar que, historicamente, o negro é visto com o conceito de um cidadão serviçal, Raquel afirma que esse isso se concretiza quando a sociedade não vê o negro como sujeito com potencial para ocupar um cargo de gerência, de tomada de decisão ou capaz de empreender algum negócio.

Ela observa a necessidade de se pensar qual foi o lugar dado aos negros após a libertação dos escravos para entender o que se entende por racismo estrutural. “Sem qualquer direito, os negros foram largados e empurradas para as margens dos grandes centros urbanos, formando as periferias e favelas espalhadas por todo o nosso país”, explica ela,

Política de cotas

Para reverter esse cenário, Raquel Cardoso defende a política de cotas, que permite o acesso do estudante negro à universidade, assim como de iniciativas visando incentivar a permanência deles nas instituições de ensino superior.

Por serem oriundos de famílias de trabalhadores com famílias com renda menor que dois salários, é necessário o fomento aos projetos de iniciação científica, projetos de extensão, amparo às casas universitárias para abrigar os que vêm do interior do Estado.

Para se garantir o acesso e a permanência da mulher negra ao mercado de trabalho formal, há outros elementos a serem pensados porque muitas vezes, ela trabalha e estuda e é mães solo. “Por isso é fundamental facilitar o acesso, por cotas, a cursos técnicos e profissionalizantes oferecidos pelo Estado, pois isso facilitaria o acesso e a permanência delas”, assegura a integrante do movimento negro.

Invisibilidade

O estudo do Dieese não traz dados especifico sobre a presença da população negra na Região Norte, se detém a Região Sudeste do País, o que na opinião de Raquel é mais um dado que confirmar o que chama de dupla discriminação.

“A invisibilidade da mulher negra na Região Norte é outra realidade. A presença dos negros no Amazonas não está nos livros de História, não se discute nas escolas quem seriam os vultos negros que contribuíram na nossa região, dando a entender ser irrelevante a presença deles aqui, mas isso está sendo revertido em pesquisas buscando identificar e retomar essa presença, mas é um processo que ainda está sendo construído”, finaliza.

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