DESTAQUEREGIÃO AMAZÔNICA

Indígenas ocupam sede do Dsei no Vale do Javari e exigem fim de irregularidades na saúde


Maior terra indígena do Brasil, com povos isolados e de recente contato, torna-se epicentro de protesto contra má gestão, favorecimentos e abandono estrutural; Saúde e MPF apuram denúncias


Lideranças indígenas das etnias Marubo, Mayuruna, Matis e Kanamari ocuparam, de forma pacífica, a sede do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Vale do Javari, no município de Atalaia do Norte (AM), em protesto contra a precariedade da saúde indígena e a má gestão denunciada na maior Terra Indígena do país.

Com mais de 8,5 milhões de hectares e lar de 19 povos isolados e de recente contato, o Vale do Javari é uma das regiões mais sensíveis e vigiadas do Brasil. A ocupação da sede do Dsei tem como objetivo chamar atenção para o descaso institucional, que — segundo os indígenas — compromete direitos básicos, como acesso a medicamentos, atendimento médico regular e transporte de emergência.

As denúncias que motivaram o protesto constam em uma carta enviada ao Ministério da Saúde, ao Ministério Público Federal (MPF) e à Controladoria-Geral da União (CGU). O documento aponta práticas recorrentes de nepotismo, desvios de medicamentos e combustíveis, favorecimento político em contratações e total desestruturação no apoio logístico às equipes de saúde.

De acordo com os relatos das lideranças, os profissionais enviados às aldeias permanecem por longos períodos — muitas vezes até 120 dias — sem alimentação adequada ou reposição de materiais essenciais. A falta de insumos tem colocado em risco a vida de centenas de indígenas, especialmente os mais vulneráveis.

Diante das denúncias, o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), informou que está apurando rigorosamente os fatos em conjunto com os órgãos de controle. “Caso constatadas irregularidades, serão tomadas as medidas cabíveis”, declarou a pasta.

O Ministério Público Federal também já atua no caso. Recentemente, obteve na Justiça a suspensão de um processo seletivo organizado por uma ONG contratada para gerir o Dsei. O MPF identificou indícios de direcionamento e favorecimento de parentes de servidores ligados à coordenação do órgão.

O movimento indígena, embora pacífico, tem sido firme em suas exigências: demissão de gestores envolvidos, revisão imediata das contratações, reposição urgente de insumos e transparência no uso dos recursos públicos destinados à saúde indígena.

A Terra Indígena Vale do Javari, localizada no extremo oeste do Amazonas, faz fronteira com o Peru e é considerada estratégica para a proteção dos povos isolados. A situação que se desenrola ali não só expõe falhas graves na gestão do Dsei, como também reacende o debate sobre a fragilidade da política pública de saúde voltada para territórios de alta complexidade.

O caso segue sob investigação do Ministério da Saúde e do MPF, que devem anunciar novas medidas nos próximos dias. O protesto marca mais um capítulo na luta dos povos originários por respeito, dignidade e atenção pública condizente com suas realidades.

Da redação

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