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A ideologia muda. O machismo permanece.

Há episódios que, à primeira vista, parecem não guardar qualquer relação entre si. Acontecem em lugares diferentes, envolvem pessoas diferentes e nascem de circunstâncias completamente distintas.

Por Dora Tupinambá (*)

Mas basta olhar um pouco além da superfície para perceber que contam exatamente a mesma história.

Foi essa sensação que tive ao acompanhar, nos últimos dias, dois episódios que ganharam repercussão nacional e regional.

Em Manaus, a ex-primeira-dama Isabelle Fontenelle Almeida foi alvo de comentários que insinuavam que a dor pela perda do filho estaria sendo utilizada para favorecer o projeto político do marido, David Almeida. Independentemente das disputas eleitorais, considero inaceitável que o luto de uma mãe seja colocado sob suspeita ou transformado em instrumento de disputa política.

Em Brasília, Michelle Bolsonaro tornou pública a dor provocada pela relação conturbada com os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, relatando episódios de desrespeito e constrangimento que, segundo ela, marcaram sua convivência familiar.

À primeira vista, são histórias distintas.

Para mim, não são.

O que me chama a atenção é o padrão.

Quando uma mulher ocupa um espaço de influência — na política, na vida pública ou simplesmente ao lado de um homem que exerce liderança — ela passa a ser observada por lentes muito mais severas do que aquelas direcionadas aos homens. Mais cedo ou mais tarde, surgem aqueles que acreditam ter o direito de diminuí-la, constrangê-la, ridicularizá-la ou tratá-la como se fosse propriedade de alguém.

O partido muda.

A ideologia muda.

O machismo permanece.

Há um componente, porém, que talvez muitos ainda não consigam enxergar.

Isabelle Fontenelle Almeida é jovem. E, neste país, mulheres jovens quase nunca recebem o benefício da confiança. Recebem desconfiança.

Se ocupam um espaço de destaque, logo aparecem os que insinuam que não merecem estar ali. Como se juventude fosse sinônimo de incompetência. Como se uma mulher precisasse envelhecer para conquistar o direito de ser respeitada. Como se tivesse de pedir licença para existir.

Além disso, Isabelle divide a vida com David Almeida, uma das principais lideranças políticas do Amazonas. Como qualquer homem público, ele está sujeito à crítica e ao confronto de ideias. É assim que funciona a democracia.

O que não faz parte da democracia é transformar sua esposa em instrumento da disputa política.

Faço questão de registrar minha admiração por Isabelle. Não apenas porque compartilhamos o mesmo campo político no Amazonas, mas porque aprendi, ao longo da vida, a reconhecer a dignidade de mulheres que ocupam espaços permanentemente submetidos ao julgamento público.

Vejo nela discrição, serenidade e uma postura que jamais justificariam o tipo de exposição a que foi submetida.

Minha solidariedade nasce dessa convivência política, é verdade. Mas nasce, sobretudo, de um princípio que considero inegociável: nenhuma mulher deve ser humilhada para que adversários obtenham dividendos políticos.

Foi exatamente esse princípio que me fez refletir também sobre Michelle Bolsonaro.

Michelle nunca representou minhas ideias políticas. Provavelmente jamais representará.

Continuarei combatendo, no campo democrático, o projeto político que ela defende. Porque democracia também é confronto de ideias e de projetos de país.

Mas nenhuma divergência ideológica autoriza ataques misóginos, humilhações ou qualquer forma de violência dirigida a uma mulher.

Não preciso concordar com Michelle Bolsonaro para defender seu direito de ser tratada com respeito.

Da mesma forma, não preciso compartilhar cada aspecto da trajetória de Isabelle Fontenelle Almeida para reconhecer quando uma mulher é transformada em alvo da arrogância masculina.

Há quem imagine que o machismo usa camisa partidária.

Não usa.

Ele veste a roupa que lhe convém.

Pode aparecer dentro de uma família, em um gabinete de Brasília, em um estúdio de televisão, em um gabinete de Manaus ou na mesa de um bar.

Seu método é sempre o mesmo.

Diminuir mulheres para reafirmar o poder masculino.

Falo com a autoridade de quem conhece esse roteiro.

Sou amazônida.

Sou jornalista.

Sou mulher.

Construí minha carreira em redações onde, durante muito tempo, as decisões importantes tinham voz, rosto e sobrenome masculinos. Aprendi que competência, para uma mulher, quase nunca basta. É preciso prová-la todos os dias.

Também fui mãe enquanto construía minha profissão. Aprendi a equilibrar a responsabilidade de criar meus filhos com a cobrança permanente de demonstrar eficiência, firmeza e competência. Cobranças que, curiosamente, raramente recaem com a mesma intensidade sobre os homens.

Depois vieram os anos no movimento sindical.

Presidir um sindicato sendo mulher significou enfrentar olhares que, muitas vezes, toleravam minha presença, mas não aceitavam minha liderança.

Conheço esse roteiro.

Talvez por isso eu o reconheça tão facilmente quando ele se repete na vida de outras mulheres.

O feminismo em que acredito não distribui dignidade conforme o partido.

Não escolhe quais mulheres merecem respeito.

Não estabelece uma hierarquia entre vítimas.

Dignidade não é prêmio ideológico.

É um direito.

Mulheres não precisam pensar como eu para que eu reconheça sua humanidade.

Não precisam votar nos mesmos candidatos.

Não precisam compartilhar minha visão de mundo.

Basta que sejam mulheres submetidas a um tratamento que jamais seria dispensado a um homem na mesma circunstância.

A política brasileira ainda precisa aprender que mulheres não são extensão dos homens.

Não são troféus.

Não são patrimônio.

Não são escudos.

Muito menos campo de batalha para guerras travadas por egos masculinos.

Depois de tantos anos vivendo o jornalismo, a política e a vida pública, aprendi uma lição que o tempo apenas confirmou.

O machismo muda de discurso para sobreviver.

Às vezes se apresenta como brincadeira.

Às vezes como ironia.

Às vezes como estratégia política.

Mas continua perseguindo o mesmo objetivo: lembrar às mulheres que, para alguns homens, o poder ainda lhes pertence.

Lamento informar.

Nós não pediremos licença.

Nunca mais.

(*) Dora Tupinambá é jornalista, amazônida, feminista, mãe, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Amazonas (Sinjor-AM) e professora universitária. Há mais de quatro décadas acompanha a política, a comunicação e as transformações sociais da Amazônia, sempre na defesa da democracia, da justiça social e dos direitos das mulheres.

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