Por trás da urna, cidadãos fazem a democracia chegar à Amazônia
Mesárias e mesários assumem funções essenciais nas Eleições 2026 e ajudam a levar o direito ao voto das capitais às comunidades mais distantes da Região Norte
Antes que o primeiro eleitor entre na cabine de votação, uma equipe de cidadãos já terá organizado a seção, conferido os materiais e preparado a urna eletrônica. Quando o último voto for registrado, essas mesmas pessoas ainda estarão no local para encerrar os trabalhos e emitir os documentos com o resultado.
São as mesárias e os mesários, brasileiros sem vínculo permanente com a Justiça Eleitoral que assumem, durante a votação, a responsabilidade de conduzir os trabalhos nas seções eleitorais.
Nas Eleições Gerais de 2026, eles estarão presentes em escolas, aldeias, comunidades rurais e localidades ribeirinhas do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro. Onde houver necessidade de segundo turno para presidente ou governador, a votação ocorrerá em 25 de outubro.
Na Amazônia, esse trabalho ganha uma dimensão particular. As grandes distâncias, a dependência do transporte fluvial e as dificuldades de comunicação transformam a realização das eleições em uma ampla operação logística e humana.
Em muitas comunidades, o mesário também é alguém conhecido pelos moradores, capaz de orientar o eleitorado e aproximar a Justiça Eleitoral de populações que vivem longe das sedes municipais.
O trabalho que começa antes da votação
Cada seção possui uma Mesa Receptora de Votos, formada por cidadãos nomeados pela Justiça Eleitoral. Entre eles estão o presidente, os mesários e os secretários, com funções definidas para assegurar a regularidade do processo.
A equipe organiza o espaço, posiciona a urna, verifica os materiais e prepara a seção para receber o público. Durante a votação, identifica os eleitores, realiza a habilitação para o voto, orienta as filas e garante o atendimento prioritário previsto em lei.
Ao final do dia, os integrantes encerram a urna, emitem os boletins com os resultados e preparam a documentação que será encaminhada à Justiça Eleitoral.
Embora exerçam a função por um período determinado, mesárias e mesários atuam como agentes públicos no dia da eleição. A responsabilidade exige atenção, imparcialidade e compromisso com o sigilo do voto.
As pessoas convocadas recebem capacitação antes do pleito. O treinamento pode incluir videoaulas, aplicativos, cursos a distância, manuais, palestras e encontros presenciais. No local de votação, a equipe conta com o suporte dos cartórios eleitorais, dos coordenadores e dos técnicos responsáveis pelas urnas.
Voluntários podem se inscrever
O programa Mesário Voluntário é adotado pela Justiça Eleitoral desde 2004 e permite que eleitores manifestem interesse em participar diretamente da organização do pleito.
A inscrição pode ser feita pelos portais da Justiça Eleitoral e dos tribunais regionais eleitorais, pelo aplicativo e-Título ou diretamente no cartório eleitoral. O cadastramento não representa convocação automática, pois a escolha depende das necessidades de cada zona.
Nos estados da Região Norte, o interessado deve procurar os canais do TRE do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima ou Tocantins. As orientações e os formulários podem variar, mas as regras centrais são definidas nacionalmente.
A legislação estabelece alguns impedimentos. Não podem atuar, por exemplo, candidatas e candidatos, seus cônjuges e parentes até o segundo grau, integrantes de diretórios partidários com função executiva, servidores da Justiça Eleitoral e menores de 18 anos.
Depois da nomeação, o comparecimento passa a ser obrigatório. Quem tiver motivo legítimo para não exercer a função deverá apresentar pedido de dispensa à Justiça Eleitoral, acompanhado da documentação necessária.
Os juízes eleitorais têm até 5 de agosto para publicar os editais de nomeação das pessoas que trabalharão nas mesas receptoras no primeiro e no eventual segundo turno.
Trabalho garante folgas e auxílio-alimentação
A atuação como mesário não gera salário, mas a legislação assegura benefícios em reconhecimento ao serviço prestado.
Nas Eleições 2026, o auxílio-alimentação foi fixado em R$ 65 por turno trabalhado. O convocado também tem direito a dois dias de folga para cada dia de atuação nas eleições e para cada dia dedicado ao treinamento, sem prejuízo do salário.
Para utilizar a compensação, o trabalhador deve apresentar ao empregador a declaração expedida pela Justiça Eleitoral e combinar as datas das folgas.
Também podem existir benefícios adicionais, como horas complementares em instituições de ensino ou critério de desempate em concursos públicos. Essas vantagens dependem de leis, convênios, regulamentos ou editais adotados em cada estado.
A democracia além das estradas
Nas capitais, as seções costumam funcionar em locais de fácil acesso e integrados à estrutura urbana. No interior da Amazônia, a preparação pode exigir viagens de barco, aeronaves e longos deslocamentos por estradas.
Urnas, servidores e materiais precisam chegar a comunidades onde o acesso depende do nível dos rios, das condições climáticas e de operações organizadas com antecedência.
Nesse cenário, a eleição não é realizada apenas por instituições. Ela depende de uma rede formada por servidores, técnicos, forças de segurança, pilotos, barqueiros, lideranças comunitárias e moradores convocados para atuar nas seções.
A urna eletrônica é a imagem mais conhecida do sistema eleitoral brasileiro. Sozinha, porém, ela não organiza a seção, não identifica o eleitor nem orienta quem chega para votar.
São pessoas comuns que realizam essas tarefas.
Na Amazônia, onde as distâncias desafiam a presença do poder público, mesárias e mesários ajudam a garantir que a cidadania não termine onde acaba a estrada.
Com informações do Tribunal Superior Eleitoral.
Foto: Divulgação/TSE.


