Sensores mapeiam calor e ajudam a planejar futuro de Manaus
Pesquisa do MIT, Ufam e prefeitura mede diferenças térmicas na capital e testa soluções para tornar construções mais adaptadas ao clima amazônico
Por que algumas áreas de Manaus parecem muito mais quentes que outras? E quanto do calor sentido dentro das casas e nas ruas pode ser reduzido por mudanças na arquitetura e no planejamento da cidade?
Sensores instalados em diferentes pontos da capital começaram a produzir dados que poderão ajudar a responder essas questões. O monitoramento integra uma pesquisa internacional que transforma Manaus em laboratório para estudar o calor urbano e testar soluções adaptadas às condições da maior metrópole da Amazônia brasileira.
O trabalho reúne o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), dos Estados Unidos, a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e a Prefeitura de Manaus, por meio do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb).
Equipamentos estão funcionando nas zonas Oeste, Sul, Leste e Centro-Sul, permitindo comparar as condições térmicas de diferentes partes da cidade.
Mais do que registrar temperaturas, a pesquisa pretende compreender como características das construções e da ocupação urbana interferem no calor sentido pela população.
Cidade-laboratório
Manaus ocupa uma posição particular no estudo. Além das altas temperaturas características da região, a expansão urbana, os diferentes padrões de ocupação e as características das edificações permitem investigar como uma grande cidade amazônica pode se adaptar a um cenário climático cada vez mais desafiador.

A pesquisa é conduzida pela arquiteta equatoriana Sylvia Jiménez Riofrío, doutoranda do MIT, e já acumula mais de 14 meses de trabalho relacionado à capital amazonense.
Um dos locais escolhidos para a coleta está no Parque Mosaico, no Tarumã, zona Oeste. A sede do Implurb também integra a rede de monitoramento.
Os dados servirão para identificar diferenças térmicas entre áreas da cidade e alimentar um modelo físico-matemático desenvolvido pela pesquisadora.
“Manaus é a maior cidade amazônica da região, e sua importância não é apenas para o Brasil, mas para toda a América Latina”, afirma Sylvia.
Segundo ela, decisões tomadas na capital amazonense podem oferecer referências para outras cidades que enfrentam problemas semelhantes.
Telhado duplo
Uma das vertentes mais interessantes da pesquisa está literalmente sobre as casas.
Sylvia investiga o desempenho de sistemas de dupla cobertura, técnica na qual uma segunda camada de telhado cria proteção adicional contra a incidência direta da radiação solar.
A intenção é medir, com dados coletados em Manaus, em que condições essa solução pode melhorar o conforto térmico das edificações.
A partir das medições, será desenvolvido e calibrado um modelo capaz de simular diferentes estratégias arquitetônicas para enfrentar o calor.
Isso pode ter reflexos que vão além da temperatura dentro dos imóveis. Construções termicamente mais eficientes também podem reduzir a necessidade de climatização artificial e, consequentemente, o consumo de energia.
Regras urbanas
Outro desdobramento torna o levantamento especialmente relevante para Manaus: os resultados poderão subsidiar futuras mudanças nas regras de planejamento e construção da cidade.
O coordenador do Grupo de Pesquisa Arquitetura Moderna na Amazônia, da Ufam, arquiteto Marcos Cereto, avalia que as informações poderão contribuir para atualizações da legislação urbanística relacionadas ao conforto térmico, desempenho das edificações e consumo energético.
Para o diretor-presidente do Implurb, Antonio Peixoto, produzir evidências sobre o comportamento térmico da capital pode ajudar o poder público a tomar decisões mais precisas sobre seu crescimento.
“Os dados produzidos aqui poderão orientar futuras decisões sobre o desenvolvimento urbano da cidade”, afirma.
Manaus mais quente
É justamente aí que a pesquisa ultrapassa os limites acadêmicos.
Entender onde o calor se concentra, quais características urbanas agravam o problema e que soluções conseguem reduzir a temperatura pode influenciar a maneira como Manaus constrói casas, edifícios e espaços urbanos nas próximas décadas.
Os sensores espalhados pela cidade são apenas a primeira parte desse processo.
Quando as medições forem transformadas em modelos e comparações, Manaus poderá ter um retrato mais preciso de seu próprio calor — e evidências científicas para decidir como enfrentá-lo.


