Roça sem fogo ganha força diante dos incêndios no Amazonas
Com 36 municípios em situação de emergência por incêndios florestais, Idam orienta agricultores familiares sobre técnicas que preservam o solo, reduzem queimadas e mantêm a produção agrícola.
Em um Amazonas marcado pela estiagem, pela fumaça e pelo avanço dos incêndios florestais, uma prática tradicional de preparação da terra começa a receber atenção redobrada: o uso do fogo na abertura de roçados. Para reduzir os riscos ambientais sem comprometer a produção de alimentos, o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (Idam) está intensificando as orientações aos agricultores familiares sobre alternativas de cultivo que dispensam as queimadas.
A iniciativa ganha importância diante da situação de emergência declarada pelo Governo do Amazonas em 36 municípios, por meio do Decreto Estadual nº 55.751, de 10 de outubro de 2026. A medida reconhece os impactos dos incêndios florestais, agravados pelas condições climáticas e pelo período prolongado de estiagem.
A proposta do Idam é demonstrar que a preparação das áreas agrícolas pode ser realizada com técnicas capazes de conservar a fertilidade da terra, proteger os recursos naturais e oferecer maior segurança às famílias que dependem da agricultura para sobreviver.
Mais do que substituir uma prática, o desafio envolve garantir acesso à assistência técnica, equipamentos e conhecimentos adequados à realidade de cada comunidade rural.
Produzir sem queimar exige alternativas acessíveis
Durante gerações, a queima da vegetação foi utilizada por agricultores como uma forma de limpar rapidamente terrenos destinados ao plantio. Entretanto, além do risco de propagação das chamas, o procedimento pode comprometer características essenciais do solo e provocar danos à vegetação e à biodiversidade.
A engenheira agrônoma Eduarda Silva, do Idam, explica que a transição para métodos mais sustentáveis precisa considerar as condições de trabalho e a capacidade produtiva de cada agricultor.
Segundo ela, o papel dos profissionais de assistência técnica e extensão rural não se limita à recomendação de abandonar o uso do fogo.
“É importante destacar que o papel do extensionista não é apenas orientar o agricultor a não utilizar o fogo, mas apresentar alternativas técnicas que sejam acessíveis, viáveis e adequadas à realidade da agricultura familiar”, afirmou.
Essa abordagem é especialmente importante no interior do Amazonas, onde dificuldades de transporte, acesso a máquinas e aquisição de insumos podem limitar a adoção de novas técnicas agrícolas.
Sem apoio técnico e alternativas economicamente possíveis, a mudança de práticas tradicionais tende a encontrar obstáculos, mesmo quando os agricultores reconhecem os benefícios ambientais.
Cuidados com o solo ajudam a melhorar a produção
Uma das principais recomendações do Idam é a realização de análises de solo antes do plantio.
O procedimento permite identificar características da terra, como acidez e disponibilidade de nutrientes, oferecendo informações para definir quais correções são necessárias em cada área.
Com os resultados, os técnicos podem recomendar práticas como calagem, aplicação de gesso agrícola quando indicada e adubação adequada às necessidades de cada cultura.
Essas medidas contribuem para melhorar as condições de desenvolvimento das plantas e favorecer a produtividade sem depender da queima da vegetação.
Outra alternativa apresentada pelo instituto é o preparo mecanizado do terreno, utilizando máquinas e implementos agrícolas apropriados, quando as características da área permitirem.

O aproveitamento dos resíduos vegetais também integra as orientações. Em vez de serem queimados, folhas, galhos e restos de culturas podem, conforme o manejo recomendado, permanecer sobre o solo, formando uma cobertura protetora.
Essa camada ajuda a conservar a umidade, reduzir os efeitos da erosão e favorecer a manutenção da matéria orgânica, importante para a fertilidade da terra.
Em períodos de estiagem, a conservação da umidade assume relevância ainda maior, especialmente para pequenas propriedades que dependem diretamente das condições naturais para manter a produção.
Queimadas ameaçam lavouras, saúde e biodiversidade
Os prejuízos provocados pelo fogo não se limitam à área diretamente atingida.
Quando uma queimada perde o controle, as chamas podem alcançar plantações vizinhas, casas, áreas de floresta e instalações utilizadas pelas famílias rurais.
A fumaça representa outro risco, principalmente para crianças, idosos e pessoas com problemas respiratórios.
No solo, temperaturas elevadas podem destruir organismos importantes para a decomposição da matéria orgânica e para o equilíbrio dos nutrientes. A exposição da terra também aumenta sua vulnerabilidade à erosão, especialmente com o retorno das chuvas.
Os incêndios ainda provocam perdas de fauna e flora, atingindo animais, sementes e microrganismos que desempenham funções essenciais na manutenção dos ecossistemas amazônicos.
Em outubro, a gravidade da situação levou o poder público a ampliar as medidas emergenciais. Segundo o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, até o dia 21 o governo federal havia aprovado R$ 32,5 milhões para ações de assistência humanitária relacionadas à estiagem e aos incêndios florestais no Amazonas.
Os números mostram que a prevenção das queimadas não é apenas uma preocupação ambiental, mas também uma questão de saúde pública, segurança alimentar e proteção das comunidades.
Mudança de práticas
A orientação para o cultivo sem fogo coloca em evidência a importância da assistência técnica pública na construção de uma agricultura mais sustentável.
Para o pequeno produtor, preservar o solo significa também proteger sua principal ferramenta de trabalho e garantir condições para continuar produzindo nos anos seguintes.
Entretanto, a adoção de novas práticas depende de fatores que vão além da informação. O acesso a equipamentos, correção adequada do solo, acompanhamento técnico e tecnologias compatíveis com a realidade local pode determinar o sucesso dessa transição.
Nesse sentido, o trabalho dos extensionistas torna-se fundamental para aproximar o conhecimento agronômico das necessidades concretas das famílias rurais.
A produção agrícola e a conservação ambiental não precisam representar objetivos opostos. Com planejamento e suporte técnico, práticas de manejo mais sustentáveis podem contribuir para preservar a floresta e manter a geração de renda no campo.
Cartilha gratuita orienta agricultores
Para ampliar o acesso às informações, o Idam disponibiliza gratuitamente a cartilha Roça Sem Fogo, utilizada pelos profissionais de assistência técnica e extensão rural nas orientações aos agricultores familiares.
O material reúne recomendações para o preparo de áreas agrícolas e apresenta alternativas ao uso das queimadas.
A publicação pode ser acessada no site oficial do instituto, em Idam.
Em um estado onde a produção familiar tem papel importante no abastecimento alimentar e na economia de comunidades rurais, estimular formas de cultivo que preservem os recursos naturais representa um investimento na continuidade da própria atividade agrícola.
Diante da intensificação dos eventos climáticos extremos na Amazônia, o preparo da roça sem fogo deixa de ser apenas uma alternativa técnica e passa a integrar uma estratégia mais ampla de prevenção de desastres, proteção ambiental e segurança das famílias do campo.


