Distâncias encarecem obras públicas no interior do Amazonas
Auditor do TCE-AM alerta que custos de transporte e dificuldades de acesso precisam entrar no planejamento para evitar paralisações e desperdício de recursos
Uma obra pública no interior do Amazonas pode custar muito mais do que uma construção semelhante em Manaus. A diferença nem sempre está no preço dos materiais ou na complexidade do projeto, mas no caminho que cimento, ferro, equipamentos e trabalhadores precisam percorrer até chegar ao destino.
Em municípios onde o transporte depende principalmente dos rios, a logística pode representar uma parcela significativa do orçamento. Durante os períodos de seca, a redução da navegabilidade aumenta as dificuldades e pode comprometer prazos, abastecimento e execução dos serviços.
Essas particularidades foram apresentadas pelo auditor técnico de controle externo do Tribunal de Contas do Amazonas (TCE-AM), Vinicius Medeiros Vieira Dantas, durante o seminário Custo Amazônico: o preço da distância e os desafios da infraestrutura, realizado na quinta-feira (29/10), em Manaus, em parceria com o Tribunal de Contas da União (TCU).
Um saco de cimento que custa 50% a mais
Para demonstrar como as despesas logísticas interferem nos investimentos públicos, o auditor apresentou um exemplo em que um saco de cimento adquirido por R$ 40 poderia chegar a uma comunidade do interior custando R$ 60, após a inclusão dos gastos com transporte.
A diferença de 50% ilustra uma realidade que nem sempre aparece nas tabelas nacionais utilizadas como referência para orçamentos de obras públicas.
Outro exemplo apresentado foi a construção hipotética de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) na zona rural de Amaturá, município do interior amazonense. Nesse cenário, materiais enviados de Manaus precisariam passar por diferentes embarcações e etapas de transporte terrestre até chegar ao local da obra.
Além das despesas com frete, fatores como disponibilidade de mão de obra especializada, condições do solo e períodos de cheia e vazante dos rios podem influenciar diretamente o andamento dos projetos.
Planejar para evitar obras abandonadas
Na avaliação de Vinicius, reconhecer essas dificuldades não significa acrescentar automaticamente um percentual ao valor de uma obra. Cada despesa precisa ser identificada e tecnicamente justificada nas planilhas orçamentárias.
“O custo amazônico vai aparecer e não como um percentual a mais da obra. Isso tem que ficar bem claro”, afirmou o auditor.
O entendimento é que os custos decorrentes das condições geográficas devem ser demonstrados de maneira transparente, permitindo que os órgãos de controle diferenciem despesas legítimas de possíveis irregularidades.
O planejamento também precisa considerar as rotas de abastecimento, a navegabilidade dos rios, a disponibilidade de insumos e os riscos climáticos que podem afetar o cronograma.
“As dificuldades logísticas precisam ser demonstradas no planejamento e no orçamento”, ressaltou Vinicius.
Segundo o auditor, desconsiderar essas condições na elaboração dos projetos aumenta os riscos de paralisações, abandono de obras e necessidade de aditivos contratuais para corrigir orçamentos insuficientes.
Quando o prejuízo chega à população
Uma escola que não fica pronta, uma unidade de saúde cuja construção é interrompida ou uma estrutura pública entregue com atraso representam mais do que problemas administrativos. Para comunidades que já enfrentam dificuldades de deslocamento, essas situações podem prolongar a falta de acesso a serviços essenciais.
Por isso, o debate sobre o custo amazônico envolve também a qualidade do planejamento público e a capacidade dos governos de transformar investimentos em benefícios concretos para a população.
Durante a apresentação, Vinicius destacou a importância da fiscalização baseada em documentos, planilhas e evidências capazes de comprovar os valores utilizados nas contratações.
O desafio dos órgãos de controle é assegurar que as particularidades da Amazônia sejam reconhecidas sem comprometer a transparência e a correta aplicação dos recursos públicos.
Em uma região onde os rios funcionam como estradas e as distâncias condicionam o cotidiano das comunidades, planejar uma obra exige compreender a realidade do território. Do contrário, o custo de um orçamento inadequado pode acabar sendo pago pela população, que permanece à espera de serviços e estruturas fundamentais.


