DESTAQUEMEIO AMBIENTE

Queimadas avançam e expõem pressão ambiental no Amazonas

Embargo de 120 hectares em Manaquiri ocorre em meio ao aumento dos focos de calor, multas milionárias e questionamentos sobre o combate à destruição ambiental

Uma área de floresta maior que 169 campos de futebol, destruída pelo desmatamento e pelo fogo em Manaquiri, se tornou mais um retrato da pressão ambiental sobre o Amazonas. O embargo de 120,83 hectares, determinado pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), ocorre em um cenário de crescimento das queimadas, avanço da degradação florestal e preocupação com a fumaça que atinge cidades da região.

A irregularidade foi identificada em 30 de outubro, durante a 14ª etapa da Operação Tamoiotatá 6, na comunidade Divino Espírito Santo, no Ramal do Jaraqui, às margens do Lago Jaraqui, no quilômetro 9 da rodovia AM-354. Imagens feitas por drones revelaram a retirada da vegetação e o uso do fogo. O embargo foi formalizado em 3 de novembro.

Embora a fiscalização tenha ocorrido em uma propriedade específica, os indicadores ambientais mostram que o problema ultrapassa os limites de Manaquiri. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), compilados pelo Ministério Público de Contas do Amazonas, apontam 2.228 focos de calor no estado entre 1º e 28 de outubro deste ano.

Manaquiri aparece entre os municípios com maior número de registros no período, somando 67 detecções. A lista estadual é liderada por Lábrea, com 299, seguida de Autazes e Boca do Acre, com 207 cada.

Os números representam detecções feitas por satélite e não correspondem necessariamente à mesma quantidade de incêndios distintos. Ainda assim, revelam a dimensão da atividade do fogo em diferentes regiões do Amazonas.

Desmatamento e fogo pressionam a floresta

O avanço das queimadas ocorre paralelamente à perda de vegetação na Amazônia Legal. Segundo o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), foram detectados 374 quilômetros quadrados de desmatamento em setembro de 2026, aumento de 34% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

O Amazonas respondeu por 16% da área desmatada identificada no período, ficando atrás apenas do Pará, que concentrou 53% dos registros.

O levantamento também apontou 1.239 quilômetros quadrados de florestas degradadas na Amazônia Legal em setembro, crescimento de 21% na comparação anual. Desse total, 18% estavam no Amazonas.

A combinação de derrubada de vegetação e uso do fogo agrava a vulnerabilidade das áreas florestais. Além da perda de biodiversidade, as queimadas liberam poluentes atmosféricos que podem atingir comunidades rurais e cidades distantes dos locais onde ocorrem os incêndios.

Multas milionárias e fiscalização ampliada

O combate ao uso irregular do fogo já resultou em penalidades expressivas no estado. Entre setembro e 22 de outubro, o Ipaam lavrou 32 autos de infração em sete municípios, totalizando R$ 25,6 milhões em multas.

No mesmo período, foram emitidos 15 termos de embargo, abrangendo 724,1 hectares de áreas atingidas por irregularidades.

No caso de Manaquiri, a fiscalização ocorreu durante a vigência do Decreto Estadual nº 55.339, de setembro de 2026, que estabeleceu a proibição do uso do fogo por 120 dias, respeitadas as exceções previstas na norma.

Segundo o Ipaam, a Polícia Civil já dispõe de informações sobre o proprietário da área embargada no Ramal do Jaraqui. O órgão ambiental ainda reúne elementos para formalizar o auto de infração e dar continuidade ao processo de responsabilização.

O embargo impede novas derrubadas, queimadas e atividades incompatíveis com as restrições ambientais estabelecidas. A medida não representa a perda da propriedade, mas limita sua utilização até o cumprimento das exigências legais.

A restrição também pode dificultar o acesso a determinadas modalidades de crédito rural, conforme as normas aplicáveis aos imóveis com áreas embargadas por desmatamento ilegal.

Fumaça coloca saúde pública em discussão

A preocupação ambiental também alcança a população urbana. Durante outubro, boletins do Ministério Público de Contas registraram episódios de deterioração da qualidade do ar em Manaus e municípios do interior, com concentrações elevadas de partículas finas em diferentes pontos monitorados.

A exposição à fumaça representa risco especialmente para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.

Diante desse cenário, a fiscalização foi reforçada em municípios próximos à capital, incluindo Manaquiri, Autazes, Careiro e Careiro da Várzea. O objetivo é identificar e interromper atividades ilegais que possam contribuir para a ocorrência de incêndios e para o transporte de fumaça em direção às áreas urbanas.

Além da Tamoiotatá 6, o Ipaam mantém a Operação Alerta Fogo, voltada especificamente ao combate às queimadas ilegais durante o período de restrição.

Órgão de controle questiona combate às queimadas

A dimensão do problema também chegou ao Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM).

Em 7 de outubro, o Ministério Público de Contas apresentou representação solicitando a apuração da suficiência, eficiência e efetividade das ações estaduais de enfrentamento às queimadas, aos incêndios florestais e à poluição atmosférica.

A iniciativa ocorreu diante da recorrência de focos de calor e episódios de fumaça durante a estiagem, levantando questionamentos sobre a capacidade de prevenção, fiscalização e resposta do poder público.

A representação não representa uma conclusão de irregularidade por parte do governo, mas amplia o debate sobre a necessidade de avaliar os resultados das políticas ambientais para além do número de operações e multas anunciadas.

No caso de Manaquiri, o embargo interrompe legalmente a continuidade das atividades irregulares na área fiscalizada. Permanece, porém, o desafio de assegurar a responsabilização dos envolvidos e a recuperação da vegetação afetada.

O episódio evidencia uma questão central para a proteção da Amazônia: impedir novas derrubadas e incêndios antes que a destruição da floresta se transforme também em prejuízo ambiental, econômico e à saúde da população.

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