Pesquisa amazonense avança na COP30 com nova geração de soluções para a floresta em risco
Com três publicações que reúnem estudos e ações sobre clima, biodiversidade e eventos extremos, a Fapeam busca dar voz e protagonismo à ciência local no enfrentamento das mudanças climáticas
Belém (PA) – Na arena global da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), realizada em Belém (PA), o Amazonas não se apresenta apenas como território vulnerável, mas como agente ativo de inovação científica. Por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), o governo estadual lançou publicações que transformam dados e projetos em instrumentos de resistência e protagonismo amazônico diante da crise climática.
Os lançamentos incluem dois volumes do Portfólio de Investimentos e Resultados de Pesquisas do Amazonas – Especial COP30, o Catálogo do Comitê Técnico-Científico (CTC/AM) 2025 e o Inventário de Ações e Pesquisas para o Enfrentamento à Estiagem e Eventos Climáticos Extremos no Estado do Amazonas 2024.
Mais do que documentos técnicos, esses materiais formam um retrato da ciência que nasce e se aplica na floresta — onde o impacto das mudanças climáticas já é vivido no cotidiano de comunidades ribeirinhas, agricultores, pesquisadores e gestores locais.
A função social da pesquisa amazônica
A ciência produzida no Amazonas tem uma dimensão que ultrapassa o laboratório: é uma ferramenta social e cultural de sobrevivência. Em um Estado onde a cheia e a seca moldam o modo de vida das populações, reunir e divulgar dados científicos é também um ato de defesa coletiva.
A diretora-presidente da Fapeam, Márcia Perales Mendes Silva, destaca que o protagonismo dos pesquisadores da região é o eixo central dessa iniciativa. “É o olhar local sobre os nossos próprios desafios que pode oferecer soluções mais justas e sustentáveis”, tem defendido.
Os portfólios bilíngues, voltados às áreas de mudanças climáticas, biodiversidade, bioeconomia e inovação social, sintetizam o que há de mais recente em ciência aplicada no Amazonas. A proposta é garantir que o conhecimento produzido pela comunidade científica local não se perca em relatórios, mas reverta em políticas públicas, tecnologias acessíveis e oportunidades de inovação social.

Objetivos e impactos concretos
Os três novos materiais cumprem papéis complementares.
O Inventário de Ações e Pesquisas para o Enfrentamento à Estiagem e Eventos Climáticos Extremos sistematiza as respostas do Estado ao agravamento das secas e enchentes — fenômenos que se intensificaram nos últimos anos. Já o Catálogo do CTC/AM 2025 reúne 108 pesquisas voltadas à mitigação dos efeitos do clima, à conservação da biodiversidade e à sustentabilidade econômica.
Nos últimos sete anos, segundo a Fapeam, foram aplicados quase R$ 900 milhões em ciência, tecnologia e inovação — 97% vindos do Tesouro estadual. O resultado é a contratação de mais de 20 mil projetos que ajudam a compreender e enfrentar os desafios ambientais e sociais da região.
Esses dados apontam para uma política de ciência que tenta romper a dependência de recursos externos e apostar em soluções nascidas dentro do próprio território amazônico.
Desafios: da teoria à prática
O grande desafio, no entanto, continua sendo transformar conhecimento em ação territorial. De que forma esses estudos chegarão aos municípios mais distantes, às comunidades ribeirinhas ou aos sistemas de alerta para desastres ambientais?
Outro ponto crítico é o equilíbrio entre o financiamento local e o acesso a fundos internacionais de clima, historicamente concentrados em centros do Sudeste e fora do país. Manter autonomia e transparência na gestão dos recursos será essencial para consolidar uma política de ciência amazônica de longo prazo.
Ainda assim, o esforço da Fapeam na COP 30 representa um marco simbólico: o Amazonas passa a ser visto não apenas como patrimônio natural, mas como um centro de produção de conhecimento, com cientistas que falam a partir da floresta — e não sobre ela.
Ciência amazônica como política de futuro
A presença do Amazonas na COP 30 marca uma mudança de perspectiva: o Estado deixa de ser visto apenas como fronteira ambiental para afirmar-se como laboratório vivo de inovação e governança climática. Os portfólios, catálogos e inventários lançados pela Fapeam traduzem o esforço de uma geração de cientistas comprometida em transformar conhecimento em política pública, tecnologia social e desenvolvimento sustentável.
Se essas iniciativas avançarem do papel para a prática, o Amazonas poderá provar ao mundo que a ciência da floresta é também ciência de Estado — capaz de antecipar crises, orientar decisões e gerar novas economias sustentáveis.
Mais do que um discurso sobre preservação, o que a Fapeam apresentou na COP 30 é uma agenda de futuro: a Amazônia produzindo soluções a partir de si mesma.
Fotos: Fapeam/Divulgação


