Da periferia de Manaus aos pódios da Europa
Revelado por um projeto social, o amazonense Emerson Sabino tornou-se treinador em Portugal, forma campeões internacionais e agora aposta no jiu-jítsu como ferramenta de inclusão
Aos 9 anos, Emerson Sabino não poderia imaginar que o primeiro contato com o jiu-jítsu, em um projeto social na periferia de Manaus, abriria caminhos para uma carreira internacional. Hoje, aos 36 anos, o amazonense vive uma realidade construída sobre os tatames: atua como atleta e treinador em Portugal, prepara competidores que conquistam títulos internacionais e se dedica a ampliar o acesso ao esporte para crianças que também precisam de oportunidades.
A trajetória começou no projeto WL Jiu-Jitsu, coordenado pelo professor Wendel Lima, no Nova União. Foi nesse ambiente que Emerson encontrou mais do que uma atividade esportiva. A rotina de treinamentos passou a fazer parte de sua formação, oferecendo disciplina, convivência e perspectivas para um futuro que, anos depois, ultrapassaria as fronteiras brasileiras.
A experiência vivida na infância ajuda a explicar a direção que sua carreira tomou. O menino que recebeu uma oportunidade por meio do esporte tornou-se um profissional interessado em oferecer a outras pessoas condições semelhantes de desenvolvimento.
Desde 2017, Emerson divide sua atuação profissional entre o Brasil e Portugal, onde construiu espaço como competidor e professor de jiu-jítsu.

Da formação esportiva às conquistas internacionais
A carreira de Emerson reúne participações e conquistas em competições como o Campeonato Oswaldo Alves, o Sul-Americano, a Copa Norte-Nordeste e torneios dos circuitos AJP e PBJJF.
Atualmente, além de competir na categoria Master 2, o faixa-preta dedica parte importante de sua rotina à preparação de atletas brasileiros e europeus.
Os resultados desse trabalho apareceram recentemente em Torres Novas, cidade portuguesa que recebeu uma competição da PBJJF. Oito alunos treinados por Emerson conquistaram o primeiro lugar em suas respectivas categorias, segundo informações divulgadas sobre o desempenho da equipe.
O resultado representa uma conquista coletiva, construída durante os treinamentos e na preparação dos atletas para enfrentar competições de diferentes níveis.
Mais do que transmitir técnicas de luta, o professor trabalha com aspectos relacionados à disciplina, concentração, confiança e preparação para situações de pressão, elementos que também fazem parte da formação esportiva.

Entre os atletas orientados por Emerson está outro amazonense, Carlos Yan, de apenas 15 anos.
O jovem conquistou um título mundial em competição organizada pela ISBJJA, resultado que evidencia o caminho percorrido por uma nova geração de atletas manauaras no circuito europeu, conforme informações divulgadas pela equipe.
A conquista de Carlos também revela uma conexão importante entre os dois atletas: ambos representam o Amazonas fora do Brasil, agora em diferentes momentos de suas trajetórias esportivas.
Para Emerson, acompanhar o crescimento dos alunos tornou-se uma das principais realizações da carreira.
“O esporte me proporcionou algo indescritível: me tirou de uma realidade difícil em Manaus para viver e conhecer o mundo através do Jiu-Jitsu. Minha maior realização hoje não é apenas medalhar, mas ver meus alunos no topo do pódio após todo o preparo físico e psicológico”, afirmou.
Uma nova oportunidade para crianças com deficiência
A próxima etapa da trajetória do treinador não estará concentrada exclusivamente nas competições.
Emerson prepara para a primeira semana de novembro um projeto voltado à inclusão de crianças neurodivergentes e com deficiência, com atividades adaptadas para participantes autistas e com síndrome de Down.
A proposta pretende ampliar as possibilidades de acesso ao jiu-jítsu, considerando as necessidades, características e o ritmo de aprendizagem de cada criança.
A iniciativa tem significado especial quando relacionada à própria história de Emerson. Sua carreira nasceu dentro de um projeto social, onde o esporte funcionou como porta de entrada para experiências que ele dificilmente imaginava viver na infância.

Agora, como treinador, ele busca utilizar os conhecimentos acumulados para criar oportunidades que vão além das conquistas em campeonatos.
Na prática, atividades esportivas inclusivas exigem planejamento, atenção individualizada, profissionais preparados e diálogo com as famílias. Para crianças que necessitam de adaptações, o objetivo não deve ser exclusivamente o desempenho competitivo, mas a participação segura, a convivência e o desenvolvimento de habilidades.
O jiu-jítsu pode oferecer oportunidades de movimento, interação e aprendizagem, desde que as atividades respeitem as condições e necessidades individuais dos participantes.
O projeto anunciado por Emerson se insere nessa perspectiva, propondo que o tatame seja também um espaço de acolhimento e participação.
O impacto dos projetos sociais na periferia
A história do faixa-preta amazonense também chama atenção para uma discussão que ultrapassa o universo esportivo: a importância de oferecer atividades gratuitas ou acessíveis a crianças e adolescentes das periferias urbanas.
Projetos sociais desenvolvidos em comunidades com dificuldades de acesso a equipamentos esportivos podem representar oportunidades de convivência, formação e descoberta de talentos.
Em Manaus, onde diferentes modalidades de artes marciais possuem tradição, iniciativas dessa natureza também aproximam crianças e jovens de professores que podem se tornar referências em suas trajetórias.
Entretanto, nem todo participante de um projeto social se tornará atleta profissional, e esse não precisa ser o principal indicador de sucesso.
Os benefícios também podem estar na construção de vínculos, na ampliação das experiências culturais e esportivas e na criação de ambientes seguros de aprendizagem.
A trajetória de Emerson mostra uma das possibilidades abertas por essas iniciativas, sem deixar de evidenciar a importância do investimento contínuo na formação de crianças e adolescentes.
Do Amazonas para o mundo, sem esquecer as origens
Aos 36 anos, Emerson reúne conquistas como atleta, experiência internacional e resultados na formação de novos competidores. Sua atuação em Portugal demonstra como o conhecimento esportivo desenvolvido no Amazonas pode alcançar outros países e contribuir para a preparação de diferentes gerações.
Mas talvez o aspecto mais significativo dessa caminhada esteja na decisão de ampliar o alcance social do próprio trabalho.
Ao preparar um projeto para crianças autistas e com síndrome de Down, o treinador acrescenta uma nova dimensão à experiência que começou aos 9 anos, quando encontrou no WL Jiu-Jitsu a oportunidade de iniciar sua formação.
Entre a periferia de Manaus e os tatames portugueses existe uma trajetória de quase três décadas. Nela, medalhas e títulos representam conquistas importantes, mas não explicam sozinhos o alcance de sua história.
O legado que Emerson Sabino busca construir também passa pelas oportunidades oferecidas aos alunos, pela confiança das famílias e pela possibilidade de que outras crianças encontrem no esporte um espaço para desenvolver suas próprias capacidades.
Afinal, o valor de um projeto social não está apenas nos campeões que forma, mas nas portas que consegue abrir para quem antes tinha poucas oportunidades.


