CULTURADESTAQUEMEIO AMBIENTE

Festival Saci-Pererê une cultura e defesa da floresta em Manaus

Evento gratuito na zona Norte reúne hip-hop, saberes afro-indígenas, plantio de árvores e atividades para crianças e jovens entre sexta-feira (30) e domingo (1º).

Na periferia de Manaus, onde o calor intenso, a falta de arborização e as desigualdades urbanas fazem parte da realidade de muitas famílias, a cultura está sendo utilizada para discutir questões que vão muito além do entretenimento. Durante três dias, o bairro Colônia Santo Antônio, na zona Norte da capital, será palco de uma experiência que aproxima a memória dos povos da floresta, a expressão artística da juventude e a defesa do meio ambiente.

De sexta-feira (30/10) a domingo (1º/11), a comunidade recebe o Festival Saci-Pererê: Raízes, Resistência e Reflorestamento Cultural, iniciativa gratuita organizada pela Associação Coletivo Pererê. A programação reúne oficinas artísticas, apresentações culturais, atividades educativas, distribuição e plantio de mudas, além de manifestações do movimento hip-hop.

As atividades serão realizadas na Toca do Saci e em espaços comunitários do bairro, incluindo a Rua Pinheiro, conhecida como Rua do Folclore. A proposta é transformar a ocupação cultural do território em uma oportunidade de convivência, aprendizagem e participação comunitária.

O festival nasce de um trabalho desenvolvido ao longo do ano com crianças e adolescentes da Colônia Santo Antônio. Sua realização também busca chamar atenção para o papel das periferias na construção de respostas aos problemas ambientais enfrentados pela capital amazonense.

O conceito que orienta o festival é chamado pelos organizadores de “reflorestamento cultural”. A expressão combina o plantio de árvores com a valorização de conhecimentos tradicionais e manifestações culturais ligadas à identidade amazônica.

A ideia parte do entendimento de que preservar a natureza também significa reconhecer as histórias, os símbolos e os saberes transmitidos entre gerações.

Nesse contexto, personagens como Saci-Pererê, Curupira e Iara deixam de ser apresentados apenas como figuras das narrativas escolares e passam a integrar reflexões sobre ancestralidade, pertencimento e proteção das florestas e das águas.

Nas atividades propostas pelo coletivo, essas figuras são abordadas a partir de perspectivas culturais afro-indígenas e de narrativas sobre os encantados, presentes em diferentes tradições populares.

A escolha do Saci como símbolo central também carrega uma dimensão de resistência cultural, aproximando referências do folclore brasileiro das experiências vividas por crianças e jovens da periferia.

Para o produtor Roberto Fernandes, integrante do Coletivo Pererê, recuperar essas referências é uma maneira de fortalecer vínculos entre identidade, território e responsabilidade ambiental.

Segundo ele, a proposta procura reconectar as novas gerações às raízes culturais e utilizar as linguagens artísticas como instrumentos de escuta, convivência e construção da cidadania.

Hip-hop aproxima juventude e consciência ambiental

O hip-hop ocupa um espaço importante na programação, com atividades que envolvem grafite, música, dança, poesia falada e batalhas de rimas.

Essas manifestações, historicamente associadas à expressão das juventudes periféricas, serão utilizadas como caminhos para discutir temas como desigualdade urbana, violência, preservação ambiental e direito à cidade.

A escolha das linguagens também aproxima o festival do cotidiano de crianças e adolescentes que encontram na cultura de rua uma forma de expressar experiências, questionamentos e expectativas.

O presidente do Coletivo Pererê e idealizador do evento, Yure Ferreira, destaca que a iniciativa representa a continuidade de um trabalho comunitário desenvolvido durante todo o ano.

Para ele, discutir a falta de arborização, o calor excessivo e os impactos ambientais dentro do próprio bairro significa reconhecer que os moradores das periferias também produzem conhecimento e podem contribuir para as soluções dos problemas urbanos.

A relação entre cultura e meio ambiente ganha significado especial em Manaus, onde a expansão das áreas construídas, a redução da cobertura vegetal em determinados espaços e as temperaturas elevadas reforçam a necessidade de discutir o planejamento urbano.

Nesse cenário, o plantio de árvores não aparece apenas como uma atividade simbólica, mas como parte de uma reflexão sobre qualidade de vida e acesso a espaços públicos ambientalmente mais saudáveis.

Plantio de mudas e saberes da floresta

Além das atividades artísticas, o festival contará com ações práticas de educação ambiental.

Em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), estão previstas distribuição e plantio de mudas nas calçadas do bairro, incentivando a participação dos moradores no cuidado com os espaços urbanos.

O evento também terá o estande Igarapé do Saci, dedicado à apresentação de sementes, espécies vegetais, conhecimentos sobre a fauna amazônica e saberes relacionados à conservação da floresta.

Outra atividade será a oficina de bioinstrumentos amazônicos, na qual os participantes poderão conhecer formas de produzir instrumentos musicais utilizando sementes e materiais provenientes da natureza.

A proposta aproxima educação ambiental e expressão artística, demonstrando como elementos da biodiversidade também estão presentes nas manifestações culturais da região.

Para as crianças, essas experiências representam oportunidades de aprendizagem fora do ambiente escolar, estimulando a curiosidade sobre a floresta e a relação entre natureza, cultura e vida comunitária.

Três dias de atividades gratuitas

A programação começa na sexta-feira (30), a partir das 15h, com brincadeiras tradicionais conduzidas por integrantes do Centro Acadêmico de Pedagogia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), oficina de bioinstrumentos com Cida Aripória e Junior Xoque, apresentações musicais com Zulu DJ MC Fino e atividades de educação ambiental.

No sábado (31), o público poderá participar de oficinas de artes visuais com Sarah Campelo e de grafite com a artista Alie, do coletivo Perifa Amazônia.

Um dos momentos previstos é o cortejo cultural pelas ruas da Colônia Santo Antônio, às 17h, conduzido pelo grupo Maracatu Eco da Sapopema. A apresentação levará música, movimento e referências da cultura popular para o espaço urbano.

No domingo (1º), último dia do festival, a programação inclui oficina de capoeira com Lucas Moreira, poesia falada e slam com Enma Fuzinatto, além da tradicional batalha de rimas organizada pela Batalha da Malta.

As atividades começam às 15h nos três dias, com participação gratuita e aberta ao público.

Cultura periférica como política pública

A realização do festival também evidencia a importância do financiamento público para iniciativas culturais desenvolvidas fora dos circuitos tradicionais de eventos.

O projeto conta com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), por meio do Edital de Fomento Cultural Multilinguagens nº 09/2025, com participação das instituições estaduais e federais responsáveis pela política de cultura.

Para os organizadores, esse apoio permite ampliar o acesso da população a atividades artísticas e educativas, especialmente em comunidades onde a oferta regular de programação cultural pode ser limitada.

A Associação Coletivo Pererê, responsável pelo evento, é uma organização sem fins lucrativos sediada na Colônia Santo Antônio. Suas atividades envolvem arte, educação popular, meio ambiente e ações voltadas ao desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Ao ocupar ruas e espaços comunitários, o Festival Saci-Pererê demonstra que a cultura não precisa ficar restrita aos teatros, museus ou grandes centros de eventos.

Na periferia, ela também acontece nas calçadas, nas rodas de conversa, nas batalhas de rimas e nas experiências coletivas que aproximam diferentes gerações.

Mais do que celebrar personagens do imaginário popular, o encontro propõe uma reflexão sobre pertencimento, memória e responsabilidade com o território.

A mensagem que atravessa a programação é simples: cuidar da floresta também passa por valorizar as pessoas, suas histórias e os espaços onde vivem.

Fotos: Henriques Michiles

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

NEWSLETTER • TODOS OS DIAS

Receba em primeira mão
nossos destaques
todos os dias.

As principais notícias do nosso portal, reunidas em um resumo especial e enviadas direto para o seu e-mail.

Gratuito. Confirme sua inscrição pelo e-mail recebido.

Pular para o conteúdo