FIINSA termina com cobrança por riqueza compartilhada
Festival reuniu mais de mil participantes em Manaus e reforçou a necessidade de garantir que os benefícios econômicos da floresta cheguem às comunidades amazônicas
A Amazônia está no centro das discussões sobre o futuro da economia sustentável, mas uma questão continua desafiando investidores, empreendedores e comunidades tradicionais: como garantir que a riqueza gerada pela biodiversidade seja compartilhada com quem vive e protege a floresta? Essa foi uma das principais reflexões da quarta edição do Festival de Investimentos de Impacto e Negócios Sustentáveis da Amazônia (FIINSA), encerrado na quinta-feira (5), em Manaus.
Durante três dias, mais de mil participantes discutiram alternativas para transformar o potencial da floresta em desenvolvimento econômico e social. O encontro reuniu investidores, empresários, pesquisadores, lideranças indígenas, empreendedores comunitários e representantes de organizações da sociedade civil.
Realizado pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) e pelo Impact Hub Manaus, o festival promoveu 47 atividades, distribuídas em seis trilhas temáticas, com mais de 200 convidados.
Mais do que apresentar oportunidades de negócios, a programação colocou em evidência os obstáculos que ainda impedem a distribuição dos benefícios econômicos da bioeconomia, especialmente nos territórios onde estão as matérias-primas, os conhecimentos tradicionais e as populações responsáveis pela conservação ambiental.
Comunidades querem participar dos resultados
Uma das discussões mais expressivas envolveu o reconhecimento econômico dos saberes tradicionais. A pesquisadora Braulina Aurora, do povo Baniwa, chamou atenção para a necessidade de considerar o conhecimento indígena como parte fundamental da construção de novos modelos econômicos.
“Não tem como falar da nova economia da Amazônia sem ouvir quem faz parte da Amazônia”, afirmou.
Para a pesquisadora, a valorização da sociobioeconomia passa pelo reconhecimento das técnicas e conhecimentos desenvolvidos historicamente pelos povos originários, articulando a ciência acadêmica com a ciência produzida nos territórios.
O debate avançou para uma questão ainda pouco enfrentada pelo mercado: a participação das comunidades nos resultados financeiros dos empreendimentos.
Marcelo Salazar, fundador da Mazô Maná, defendeu que a relação entre empresas e populações tradicionais ultrapasse a simples compra de ingredientes. Entre as alternativas apresentadas estão o pagamento de royalties e até a participação societária das comunidades em negócios desenvolvidos a partir de seus recursos e conhecimentos.
A proposta representa uma mudança na lógica de exploração econômica da biodiversidade, ao reconhecer os moradores da floresta não apenas como fornecedores de matérias-primas, mas como possíveis parceiros nos empreendimentos.
Mercado de carbono também enfrenta questionamentos
Outro tema que ganhou espaço foi o mercado de carbono, frequentemente apresentado como alternativa de financiamento para a conservação da Amazônia.
O ex-secretário de Meio Ambiente do Amazonas, Eduardo Taveira, alertou que mecanismos como o REDD+, voltado à redução das emissões por desmatamento e degradação florestal, precisam assegurar benefícios efetivos às comunidades.
Segundo ele, populações tradicionais prestam serviços ambientais essenciais, mas esse trabalho raramente recebe reconhecimento econômico proporcional.
Taveira também questionou situações em que iniciativas de conservação acabam produzindo pressões externas sobre os costumes e os modos de vida das populações amazônicas.
A ativista indígena Pi Suruí reforçou a importância da autonomia dos povos originários e da construção conjunta de soluções. Para ela, as parcerias econômicas precisam respeitar a resistência histórica e a capacidade das comunidades de decidir sobre seus próprios caminhos.
Tecnologia e economia criativa abrem oportunidades
A inovação também ocupou lugar de destaque nos debates. Uma das apostas apresentadas foi o uso da inteligência artificial para ampliar o acesso a conhecimentos especializados, especialmente em localidades distantes dos grandes centros.
A fundadora e CEO da Singulari, Luciana Nogueira Minev, destacou que a tecnologia pode reduzir barreiras enfrentadas por pequenos empreendedores amazônicos, facilitando o acesso a orientações técnicas e financeiras.
Ela ponderou, entretanto, que a inteligência artificial não substitui a educação nem a capacidade humana de compreender situações complexas.
Já a empreendedora Joanna Martins, diretora da marca Manioca, de Belém, apontou a economia criativa como instrumento para aproximar consumidores da identidade cultural e dos valores socioambientais presentes nos produtos amazônicos.
A discussão reforçou a importância de desenvolver negócios que agreguem valor à biodiversidade sem apagar as histórias, os conhecimentos e a identidade das populações envolvidas nas cadeias produtivas.
Um legado que vai além do festival
O encerramento do FIINSA foi marcado pelas “Conversas à beira do rio”, atividade que reuniu lideranças e empreendedores para compartilhar experiências e perspectivas sobre o futuro da Amazônia.
A programação também prestou homenagem a Mariano Cenamo, fundador do Idesam e da Amaz Aceleradora de Negócios de Impacto, idealizador do festival, falecido em julho deste ano. Sua expressão “Bora pra Cima” foi repetida pelo público presente na plenária.
Para André Vianna, diretor técnico do Idesam, a diversidade de organizações envolvidas na construção da programação representa uma das principais contribuições do evento, ao aproximar experiências dos territórios e oportunidades de articulação econômica.
Juliana Telles, cofundadora do Impact Hub, destacou que o verdadeiro resultado do festival deverá aparecer nas iniciativas construídas depois do encerramento da programação.
O FIINSA terminou sem eliminar as contradições da economia amazônica, mas deixou em evidência uma cobrança que atravessou diferentes debates: o desenvolvimento sustentável precisa ser medido não apenas pelo volume de investimentos ou pelo crescimento dos negócios, mas também pela capacidade de gerar renda, reconhecer direitos e assegurar que a floresta continue produzindo benefícios para as populações que historicamente garantem sua conservação.
Fotos: Divulgação


