Da floresta ao mercado, bioeconomia impulsiona novos negócios
Em entrevista exclusiva ao Valor Amazônico, Max Petrucci, fundador da Mahta, revela como ingredientes amazônicos ganham valor na indústria de alimentos e projeta faturamento de R$ 20 milhões em 2026
Transformar a biodiversidade amazônica em alimentos inovadores, capazes de conquistar consumidores e gerar oportunidades econômicas para comunidades da floresta, é um dos caminhos da bioeconomia que começam a ganhar escala no Brasil. Mas fazer essa transformação acontecer exige pesquisa, investimento, relações comerciais com produtores e capacidade de competir em um mercado cada vez mais exigente.
É nesse segmento que atua a Mahta, foodtech de nutrição regenerativa fundada em 2021, que combina ciência nutricional e ingredientes da sociobiodiversidade amazônica no desenvolvimento de superalimentos, shakes, cafés funcionais e bebidas vegetais.
Em entrevista exclusiva ao Valor Amazônico, durante o Festival de Investimentos de Impacto e Negócios Sustentáveis da Amazônia (FIINSA), realizado em Manaus, o fundador da empresa, Max Petrucci, falou sobre o crescimento do negócio, a relação com produtores da floresta e os desafios de estruturar uma cadeia produtiva sustentável.
“A Mahta é uma empresa que faz alimentos funcionais. Em primeiro lugar, a gente se preocupa em desenvolver produtos que entreguem funcionalidade e nutrição para quem consome”, explicou.
A biodiversidade como ingrediente de inovação
Guaraná de Maués, café do Apuí, marapuama e castanha-do-brasil estão entre os ingredientes utilizados pela Mahta no desenvolvimento de produtos que buscam associar valor nutricional e sustentabilidade.
Um dos exemplos apresentados por Petrucci é o café funcional, formulado com café em pó, componentes derivados do coco, cafeína proveniente do guaraná de Maués e outros bioativos amazônicos.

A empresa também produz shakes, barras proteicas e uma bebida vegetal elaborada com castanha-do-brasil.
Segundo o empreendedor, parte importante das matérias-primas é fornecida por pequenas comunidades e cooperativas que trabalham com sistemas agroflorestais, associando produção e conservação ambiental.
“Então a gente tem um impacto nutricional para quem consome, social para quem produz e ambiental para a floresta e o planeta”, afirmou.
A proposta é agregar valor aos ingredientes regionais e ampliar as possibilidades de comercialização de produtos desenvolvidos a partir da biodiversidade amazônica.
Empresa projeta faturamento de R$ 20 milhões
Petrucci explicou que a Mahta participou do processo de aceleração da AMAZ ainda na fase inicial do negócio, antes do lançamento comercial de seus produtos, em 2022.
A aproximação com a aceleradora contribuiu para a estruturação da empresa e para o desenvolvimento de sua proposta de atuação na sociobioeconomia.
Desde o início das atividades comerciais, a Mahta vem buscando ampliar sua presença no mercado de alimentos funcionais e projeta alcançar aproximadamente R$ 20 milhões em faturamento anual em 2026, segundo o fundador.
“A gente vê uma oportunidade ainda muito maior de crescimento, porque o mercado é muito grande”, afirmou.
A expectativa de expansão acompanha o interesse por alimentos funcionais, segmento no qual a empresa procura diferenciar seus produtos pela combinação de ingredientes amazônicos, pesquisa e inovação.
O crescimento, entretanto, também exige avanços na estruturação de fornecedores e no desenvolvimento de matérias-primas que atendam às necessidades da indústria.
Rastreabilidade ainda não alcança todos os ingredientes
Um dos pontos mais relevantes da entrevista foi o reconhecimento de que a empresa ainda enfrenta desafios para garantir a rastreabilidade de todos os insumos utilizados.
Atualmente, segundo Petrucci, aproximadamente 60% dos ingredientes possuem rastreabilidade, percentual informado pelo próprio empresário e que a Mahta pretende ampliar.
“Cada vez mais. Não é 100%. Hoje a gente está por volta de 60%”, revelou.
O empresário explicou que alguns componentes necessários às formulações ainda não são produzidos no Brasil. Entre os exemplos está a inulina de chicória, fibra prebiótica utilizada na indústria de alimentos.
Petrucci ressaltou que a empresa desenvolve projetos de pesquisa e desenvolvimento para ampliar suas possibilidades de utilização de matérias-primas nacionais e amazônicas.
A proposta é avançar na conexão com instituições de fomento e centros de pesquisa, buscando novas soluções para suas formulações.
Para o fundador, o objetivo é fazer com que, no futuro, toda a cadeia de ingredientes esteja alinhada à proposta de impacto socioambiental da empresa.
Ciência, mercado e floresta
A trajetória da Mahta também revela a importância de conectar conhecimento científico, inovação empresarial e atividades produtivas tradicionais.
Em agosto de 2026, a barra proteica Mahta Bar Açaí e Camu-Camu conquistou o segundo lugar na categoria Produto Mais Inovador em Saudabilidade do Startup Innovation Challenge, realizado durante o Fi South America, em São Paulo.
O reconhecimento destacou uma formulação desenvolvida com ingredientes amazônicos e representa mais uma etapa da entrada de produtos da sociobiodiversidade em segmentos de maior valor agregado.
Ao mesmo tempo, a experiência da empresa evidencia que a consolidação desses negócios depende de desafios que ultrapassam o desenvolvimento de novos produtos.
É necessário fortalecer fornecedores, ampliar a rastreabilidade, investir em pesquisa e estabelecer relações econômicas capazes de beneficiar também as populações que produzem as matérias-primas.
O desafio de crescer com a floresta
A participação da Mahta no FIINSA colocou em evidência uma das questões centrais do debate sobre o futuro econômico da Amazônia: como transformar o potencial da biodiversidade em negócios que cresçam sem perder o compromisso com as comunidades e a conservação ambiental.
A experiência apresentada por Max Petrucci mostra que ingredientes tradicionalmente associados à economia regional podem conquistar espaço em mercados mais amplos, especialmente quando combinados com tecnologia e desenvolvimento de produtos.
Mas o próprio empreendedor reconhece que essa transformação é um processo em construção, com desafios de fornecimento, rastreabilidade e ampliação das cadeias produtivas sustentáveis.
Entre o ingrediente que sai da floresta e o produto que chega ao consumidor, existe uma cadeia de relações econômicas que precisa ser fortalecida.
É justamente nesse percurso que a bioeconomia amazônica enfrenta seu maior desafio: fazer com que o crescimento dos negócios também represente oportunidades duradouras para quem vive e produz na floresta.
Fotos: Divulgação


