Amazônia gera riqueza, mas comunidades seguem à margem
Liderança extrativista critica modelo econômico que concentra os lucros da floresta e defende protagonismo das populações tradicionais na construção de um desenvolvimento mais justo
A Amazônia movimenta interesses econômicos globais, atrai investimentos e ocupa posição estratégica nas discussões sobre o futuro do planeta. Mas uma questão permanece no centro das contradições regionais: quanto dessa riqueza chega, de fato, às populações que vivem na floresta e contribuem diretamente para sua conservação?
A desigualdade na distribuição dos benefícios econômicos da exploração dos recursos naturais foi denunciada pelo seringueiro e liderança extrativista Manoel Cunha, durante o Festival de Investimentos de Impacto e Negócios Sustentáveis da Amazônia (FIINSA 2026), realizado em Manaus.
Nascido no Médio Juruá, no interior do Amazonas, Cunha construiu sua trajetória na organização das comunidades extrativistas e na defesa dos direitos das populações tradicionais. Ex-presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), ele questionou a permanência de um modelo de desenvolvimento que transforma a biodiversidade em riqueza, mas mantém as comunidades locais em posição secundária nas decisões econômicas.
“Esse modelo de desenvolvimento onde a exploração é feita levando em conta as pessoas da Amazônia apenas como mão de obra barata, para explorar matéria-prima e essa riqueza acumulada enriquece meia dúzia de pessoas. Esse modelo está errado”, afirmou.
A crítica expõe um dos principais desafios da chamada nova economia amazônica: garantir que o crescimento dos negócios sustentáveis não reproduza antigas relações de exploração, nas quais os recursos saem dos territórios enquanto a maior parte dos ganhos se concentra em outros elos das cadeias produtivas.
Quem fica com a riqueza da floresta?
Produtos como açaí, castanha, óleos vegetais, borracha e outros insumos da sociobiodiversidade representam oportunidades de geração de renda e agregação de valor. Entretanto, o potencial econômico desses recursos não assegura, por si só, melhores condições de vida aos produtores.
Entre a coleta da matéria-prima e sua chegada aos mercados consumidores existem etapas de transporte, processamento, industrialização e comercialização. A participação das comunidades nessas diferentes fases influencia diretamente sua capacidade de obter uma remuneração mais justa.

Para além da remuneração pelo trabalho, o debate envolve o acesso ao crédito, à tecnologia, à infraestrutura e aos próprios espaços de decisão sobre os empreendimentos desenvolvidos nos territórios.
A posição defendida por Manoel Cunha coloca os direitos das populações tradicionais como parte fundamental da discussão econômica.
“O centro não é a economia, o centro é as pessoas. Para que economia sem as pessoas?”, questionou durante o encontro, conforme registro divulgado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS).
A afirmação contraria a ideia de que o desenvolvimento pode ser medido apenas pelo volume de recursos investidos ou pelo faturamento dos empreendimentos. Sob essa perspectiva, o sucesso de uma atividade econômica também precisa ser avaliado pelos benefícios sociais produzidos nos territórios.
Autonomia das comunidades
A distância entre o potencial econômico da floresta e a realidade de seus moradores não se resume à distribuição dos lucros.
Durante o FIINSA, a superintendente geral adjunta da Fundação Amazônia Sustentável, Valcleia Lima, chamou atenção para dificuldades estruturais que comprometem a atividade produtiva das comunidades amazônicas.

A falta de acesso adequado à energia elétrica, por exemplo, limita o armazenamento, o beneficiamento e a comercialização de produtos da sociobiodiversidade. São obstáculos que reduzem as possibilidades de agregar valor à produção e ampliar a renda local.
Valcleia também defendeu que projetos socioambientais sejam construídos a partir da escuta das populações, respeitando suas necessidades e particularidades.
Essa realidade evidencia que a expansão da bioeconomia exige mais do que investimentos privados. Depende de políticas públicas capazes de enfrentar limitações históricas de infraestrutura, logística, assistência técnica e acesso aos mercados.
Sem essas condições, o risco é que comunidades continuem fornecendo matérias-primas de baixo valor agregado, enquanto as etapas mais lucrativas da produção permaneçam distantes dos territórios de origem.
Economia construída por quem vive na Amazônia
A defesa do protagonismo das populações tradicionais ganha importância em um momento de crescente interesse pelos recursos da biodiversidade e pelas oportunidades de negócios associados à conservação ambiental.
Na programação do FIINSA 2026, a discussão sobre negócios comunitários ganhou espaço próprio na trilha temática “Enraizar”, dedicada a associações, cooperativas e empreendimentos liderados por indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outros produtores locais.

O debate aponta para uma mudança de perspectiva: as comunidades não devem ser consideradas apenas fornecedoras de recursos naturais ou beneficiárias de projetos concebidos por terceiros, mas participantes das decisões, da gestão e dos resultados econômicos.
A experiência das organizações extrativistas demonstra que conservação ambiental e atividade produtiva podem caminhar juntas. O desafio está em ampliar essas experiências sem comprometer a autonomia dos povos e comunidades que historicamente protegem a floresta.
Mais do que reconhecer o valor econômico da biodiversidade, é necessário discutir quem controla os negócios, quem assume os riscos e quem recebe os benefícios gerados.
A provocação de Manoel Cunha sintetiza uma questão que precisa acompanhar o avanço da bioeconomia: a floresta pode ganhar valor no mercado mundial, mas não haverá desenvolvimento verdadeiramente sustentável enquanto seus habitantes permanecerem à margem da riqueza que ajudam a produzir.
Fotos: Divulgação/Instituo Socioambiental/Greenpeace/Idaam


