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Indústria de Manaus busca conexão com a economia da floresta

Empresária defende aproximação entre o Polo Industrial e as cadeias produtivas do interior para transformar a biodiversidade amazônica em inovação, negócios e geração de renda

O Amazonas abriga um dos maiores parques industriais do Brasil e, ao mesmo tempo, concentra uma das mais ricas biodiversidades do planeta. Apesar dessa combinação de potencialidades, a distância entre a produção industrial de Manaus e as atividades econômicas desenvolvidas pelas comunidades do interior ainda representa um desafio para o desenvolvimento regional.

A necessidade de aproximar esses dois universos ganhou destaque durante o Festival de Investimentos de Impacto e Negócios Sustentáveis da Amazônia (FIINSA 2026), realizado em Manaus. A discussão foi levantada pela empresária Mariana Barrela, CEO da Tutiplast, que defendeu uma participação mais efetiva da indústria na construção de uma economia baseada no aproveitamento sustentável dos recursos da floresta.

Durante o painel “Quem sustenta o longo prazo? Capital através de gerações na nova economia amazônica”, a empresária reconheceu a importância econômica da Zona Franca de Manaus, mas chamou atenção para a pouca integração entre o parque industrial e o restante do estado.

“A indústria, vocês todos entendem aqui, é o principal vetor econômico do Amazonas. Gera mais de 150 mil empregos no modelo da Zona Franca, mas ele pouco conversa com o interior, acho que quase nada”, afirmou.

A declaração coloca em discussão uma contradição do modelo econômico amazonense: enquanto Manaus concentra grande parte da infraestrutura industrial, tecnológica e logística, municípios do interior encontram dificuldades para ampliar o processamento, a industrialização e a comercialização de produtos originários da biodiversidade.

Da matéria-prima à produção industrial

A aproximação entre indústria e bioeconomia pode abrir novas oportunidades para cadeias produtivas associadas a óleos vegetais, fibras naturais, sementes, frutos e outros recursos da sociobiodiversidade amazônica.

Esses produtos possuem aplicações potenciais em diferentes segmentos industriais, incluindo cosméticos, alimentos, embalagens e materiais de origem vegetal. Entretanto, transformar esse potencial em negócios economicamente viáveis exige investimentos em pesquisa, tecnologia, infraestrutura e desenvolvimento de fornecedores.

Na avaliação de Mariana Barrela, a indústria pode contribuir para essa transformação justamente por reunir experiência produtiva, capacidade de investimento e acesso aos mercados.

A empresária relatou que a Tutiplast desenvolve, há aproximadamente seis anos, iniciativas relacionadas à bioeconomia, buscando alternativas para substituir determinados insumos industriais por ingredientes e matérias-primas de origem florestal.

“Por mais que a gente queira, a gente sabe que o que para de pé é o projeto econômico, é a viabilidade econômica para qualquer negócio”, destacou.

A observação aponta para um dos desafios da bioeconomia: fazer com que iniciativas ambientalmente sustentáveis também apresentem condições de competir no mercado e manter suas atividades no longo prazo.

Interior precisa participar dessa transformação

A integração entre o Polo Industrial de Manaus e as cadeias produtivas do interior pode representar uma alternativa para ampliar a participação dos municípios amazonenses na economia estadual.

Atualmente, uma parcela importante das oportunidades industriais está concentrada na capital. Para muitas comunidades produtoras, a venda de matérias-primas ainda é uma das principais formas de participação no mercado, enquanto etapas de maior agregação de valor, como processamento, transformação e comercialização, podem ocorrer longe dos territórios de origem.

A construção de cadeias produtivas mais integradas poderia contribuir para ampliar oportunidades de trabalho e renda no interior, além de estimular a formação de cooperativas, a qualificação profissional e o fortalecimento de empreendimentos comunitários.

Entretanto, essa aproximação também exige enfrentar problemas estruturais conhecidos na região, como os elevados custos de transporte, as dificuldades de acesso à energia elétrica, a baixa disponibilidade de infraestrutura produtiva e as limitações de assistência técnica.

Outro ponto fundamental é assegurar que a ampliação da demanda industrial por recursos da biodiversidade não resulte apenas em maior exploração de matérias-primas, mas também em remuneração justa, respeito aos conhecimentos tradicionais e participação das comunidades nos benefícios econômicos.

Oportunidade para repensar a Zona Franca

O debate sobre bioeconomia ocorre em um momento em que o Amazonas busca ampliar suas oportunidades de desenvolvimento, sem abrir mão da importância econômica do Polo Industrial de Manaus.

A proposta apresentada por Mariana Barrela não pressupõe substituir o modelo industrial existente, mas explorar possibilidades de complementaridade entre a indústria instalada na capital e as atividades produtivas sustentáveis desenvolvidas no interior.

Essa conexão pode estimular o desenvolvimento de novos produtos, processos industriais e tecnologias associados aos recursos da biodiversidade amazônica.

Para isso, porém, será necessário construir relações comerciais duradouras entre empresas, pesquisadores, produtores e organizações comunitárias, com regras que garantam sustentabilidade ambiental e benefícios econômicos compartilhados.

A experiência relatada pela Tutiplast indica que parte do setor industrial já busca alternativas nesse caminho, embora o alcance dessas iniciativas e seus resultados ainda precisem ser avaliados.

Da potência econômica à integração regional

Ao levar essa discussão ao FIINSA 2026, a empresária colocou em evidência uma questão que ultrapassa o universo empresarial: como fazer com que a estrutura industrial instalada em Manaus também contribua para o desenvolvimento econômico dos municípios do interior?

A resposta passa pela capacidade de conectar o conhecimento científico e tecnológico às práticas produtivas das comunidades, criando oportunidades que valorizem a floresta em pé e fortaleçam a economia regional.

A bioeconomia pode representar uma nova frente de diversificação produtiva para o Amazonas. Mas seu potencial dependerá da existência de políticas públicas, investimentos e parcerias capazes de transformar recursos naturais em produtos de maior valor agregado.

Mais do que aproximar fábricas e florestas, o desafio é fazer com que o desenvolvimento industrial de Manaus também abra caminhos para a prosperidade econômica das populações do interior.

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