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Água, resíduos e cidades entram na linha de frente da COP30 em Belém

Na COP30, especialistas e lideranças urbanas alertam que a Amazônia também precisa ser vista pelas suas cidades — onde o clima já é vivido nas enchentes, no lixo e na ausência de saneamento

Belém (PA) – A capital paraense vive dias em que o mundo olha para dentro da floresta — e para dentro de si. No segundo dia da COP30, realizado nesta terça-feira (11/11), o debate sobre o futuro urbano da Amazônia ganhou protagonismo.

Em painéis dedicados à adaptação climática, saneamento e economia circular, gestores públicos, pesquisadores e representantes de movimentos sociais lembraram que as cidades amazônicas são tão parte da crise climática quanto as florestas que as cercam.

“O clima não muda apenas nas árvores. Ele muda nas ruas, nas águas que correm pelos igarapés e nos rios que transbordam quando o lixo bloqueia o caminho da chuva”, disse Maria Trindade, integrante do Movimento Nacional dos Catadores, que participou da mesa “O legado da COP30 para os catadores”, realizada no pavilhão de Resíduos e Economia Circular.

Quando o lixo encontra a chuva

As discussões da COP30 escancararam o que cidades como Manaus, Belém e Santarém já conhecem de perto: as águas urbanas estão no limite.

O acúmulo de resíduos em igarapés, a drenagem insuficiente e o avanço do concreto sobre áreas de várzea criam uma combinação explosiva a cada inverno amazônico.

Durante o painel “Waters of Change – Shaping Resilient and Sustainable Pathways”, representantes da Alliance for Global Water Adaptation destacaram que a gestão integrada da água e dos resíduos deve ser prioridade na adaptação das cidades tropicais.

Segundo os especialistas, o investimento em infraestrutura verde — como jardins de chuva, bacias de retenção e reciclagem de águas pluviais — pode reduzir em até 40% os impactos das enchentes urbanas nas próximas décadas.

“A Amazônia não é apenas floresta: é um mosaico de cidades que crescem rápido e sofrem com as mudanças do clima”, afirmou Idrees Malyar, pesquisador da Aliança Global pela Água, em sua fala no painel de adaptação urbana.

Economia circular e cidadania ambiental

Enquanto negociadores falam de metas globais, os catadores, cooperativas e gestores municipais buscam soluções cotidianas.

A COP30 abriu espaço inédito para essa pauta: o “Pavilhão da Economia Circular” apresentou experiências de coleta seletiva, compostagem e reaproveitamento de resíduos com impacto direto na vida das populações urbanas.

Belém anunciou, durante o evento, a criação de seu primeiro sistema público de compostagem operado por catadores — iniciativa vista como símbolo do que pode ser uma nova era de políticas ambientais descentralizadas.

Em Manaus, a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp) mantém ecobarreiras, PEVs e programas de reciclagem que vão na mesma direção: prevenir que o lixo chegue aos igarapés e ao Rio Negro.

“A economia circular não é um conceito de conferência — é uma política de sobrevivência para quem vive entre o lixo e a chuva”, resumiu Luiz Henrique da Silva, do movimento UnicCatadores, durante sua participação na COP30.

Amazônia urbana: o novo desafio climático

As falas e compromissos assinados em Belém apontam para uma mudança de paradigma: olhar a Amazônia também a partir de suas cidades.

Ali, entre o igarapé e o asfalto, está o retrato da desigualdade e da urgência ambiental.

A COP30 marca o início dessa virada — a compreensão de que preservar a floresta depende também de gestão de resíduos, drenagem urbana e saneamento básico.

“Não existe floresta saudável com cidades doentes”, afirmou um dos especialistas do painel, sintetizando o espírito dos debates.

De Belém, a mensagem é clara: o futuro climático da Amazônia será decidido não apenas nas margens do rio, mas nas margens das calçadas.

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