CULTURA & IDENTIDADE AMAZÔNICADESTAQUE

Estudantes de Manaus criam arte com pigmentos amazônicos

Projeto “Entre dobras e cores” leva açafrão, urucum e açaí para oficinas que unem arte, identidade e reflexão sobre o futuro

Papel, pigmentos naturais e referências amazônicas vão se encontrar dentro da sala de aula em uma experiência que mistura arte, identidade e projeto de vida. Nos dias 12, 13, 14, 18, 19 e 20 de agosto, estudantes do 1º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Sant’Ana, no Aleixo, zona Centro-Sul de Manaus, participarão das oficinas do projeto “Entre dobras e cores: origamis e tinturas amazônicas”.

A iniciativa é conduzida pela artista Catarina Araújo e propõe transformar matérias-primas como açafrão, urucum e açaí em tintas utilizadas na criação de origamis. Mais do que produzir peças artísticas, o projeto busca abrir espaço para conversas sobre pertencimento, território, relações pessoais e escolhas que fazem parte da construção do futuro dos adolescentes.

“O projeto é um espaço de afetos, reflexões e germinações de possibilidades presentes-futuras na vida dos adolescentes”, explica Catarina.

Arte e território

A relação da artista com o fazer artístico começou ainda na infância, influenciada pelo pai, fotógrafo, e pelo interesse por desenhos e pinturas. Ao longo da trajetória, o origami passou a ocupar espaço importante em sua pesquisa.

Psicóloga de formação e com experiências também em terapias integrativas, Catarina encontrou na dobradura uma forma de reunir diferentes linguagens e aproximá-las de elementos da cultura amazônica.

Essa pesquisa foi amadurecendo a partir de outras experiências artísticas. Desde 2023, Catarina participa de iniciativas como Manto Vital, de Cris Canepa, e Mover os Gestos, da artista Erika Genebra.

As vivências contribuíram para a criação do projeto Artesanias, que articula expressão artística, sementes, fios, aromas, origami, saberes amazônicos e histórias de vida. “Entre dobras e cores” nasce justamente como um desdobramento dessa caminhada.

Nas oficinas, o uso de pigmentos naturais permite aproximar os estudantes de materiais presentes no cotidiano e na cultura regional, transformando elementos da floresta em ferramentas de criação.

Dobras e escolhas

A proposta também dialoga com o Projeto de Vida previsto pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A partir do processo artístico, os estudantes serão convidados a refletir sobre dimensões pessoais, sociais e profissionais de suas trajetórias. A ideia é transformar o ato de criar em um ponto de partida para pensar identidade, vínculos, responsabilidades e decisões de futuro.

O próprio origami assume um caráter simbólico dentro dessa experiência. Cada dobra modifica o papel e abre novas possibilidades de forma. Para Catarina, esse movimento pode ser associado aos caminhos, mudanças e escolhas que atravessam a vida.

As tinturas também entram nessa construção. Açafrão, urucum e açaí apresentam características próprias de preparo, uso e conservação, criando diferentes resultados no papel.

A proposta é justamente permitir que esses processos naturais dialoguem com as experiências individuais dos estudantes.

Arte como cuidado

Para Catarina, a arte não deve ser compreendida apenas como produção estética. Ela também pode funcionar como ferramenta de expressão e construção de sentidos.

“Sinto a arte como uma necessidade de expressão da subjetividade para nos mantermos vivos enquanto coletividade. É uma manifestação de outras possibilidades de releitura da realidade para que consigamos lidar com o nosso próprio interior e o mundo que nos cerca”, afirma.

Por isso, as oficinas não se limitam à execução das dobraduras. Os encontros também reservam espaço para conversas, sentimentos e questionamentos que surgirem durante o processo.

Ao inserir essa experiência dentro da escola, o projeto aproxima cultura e educação e amplia o contato dos estudantes com diferentes formas de criação.

Além disso, reforça a valorização de matérias-primas amazônicas e mostra como elementos do território podem assumir novos significados quando atravessados pela arte.

Produção coletiva

O projeto reúne profissionais de diferentes áreas.

A produção executiva é de Viviane Palandi. A videomaker e a fotografia ficam sob responsabilidade de Aline Fidelix e Alonso Júnior. A identidade gráfica é assinada por Cris Desrosiers, enquanto Karoline Medeiros atua na assistência de produção e Irlene de Sousa participa como professora colaboradora e mediadora.

“Entre dobras e cores” foi contemplado pelo Edital de Artes Visuais do Conselho Municipal de Cultura de Manaus (Concultura) e é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).

Ao transformar açafrão, urucum e açaí em tintas e o papel em espaço de criação, o projeto propõe uma experiência que vai além da oficina.

Entre uma dobra e outra, a arte vira também caminho para falar sobre Amazônia, identidade e futuro.

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