Rotta, Tadeu e o preço da lealdade na política do Amazonas
Antigos aliados de David Almeida chegaram a posições privilegiadas dentro de seu grupo, mas hoje estão no campo adversário na disputa pelo Governo do Amazonas.
A chegada de Marcos Rotta à coordenação-geral da campanha de Roberto Cidade não é apenas mais uma mudança de lado na política amazonense. Ela acrescenta um novo capítulo a uma questão que começa a cercar o grupo de David Almeida: até onde vai a lealdade quando projetos políticos e interesses eleitorais deixam de caminhar na mesma direção?
Rotta é o segundo personagem de grande proximidade com David que, em poucos meses, atravessa a linha que separa aliados e adversários.
Antes dele, Tadeu de Souza havia feito movimento semelhante.
As duas histórias não são iguais. Mas têm algo importante em comum: tanto Tadeu quanto Rotta ocuparam espaços privilegiados dentro do grupo de David, receberam confiança política e chegaram a posições que dificilmente seriam alcançadas naquele momento sem o apoio direto do então prefeito de Manaus.
Hoje, os dois estão do outro lado.
Amigo de infância
O caso de Tadeu talvez seja o mais simbólico.
A relação entre ele e David Almeida antecede a política institucional. O próprio David já se referiu publicamente a Tadeu como “amigo de infância” ao falar sobre a escolha do candidato a vice-governador em 2022.
Tadeu havia construído até então uma carreira essencialmente técnica.
Procurador do Estado, foi nomeado procurador-geral durante a passagem de David pelo Governo do Amazonas, em 2017. Depois, comandou a Casa Civil da Prefeitura de Manaus na gestão do amigo.
Em 2022 veio o movimento que mudou sua trajetória.
David tinha o direito de indicar o candidato a vice na chapa de Wilson Lima. Havia outros nomes de seu grupo político na disputa pela vaga, alguns deles com longa experiência eleitoral.
Escolheu Tadeu.
A indicação levou um homem que nunca havia disputado uma eleição diretamente para uma chapa majoritária que venceria a disputa pelo Governo do Amazonas.
Quatro anos depois, a relação política entre os dois estaria rompida.
Tadeu deixou o Avante, partido comandado por David no Amazonas, aproximou-se definitivamente do grupo de Wilson Lima e passou a atuar no campo eleitoral de Roberto Cidade.
Confiança em Rotta
Marcos Rotta tem uma trajetória diferente.
Quando se aproximou de David, já carregava décadas de vida pública, mandatos de deputado estadual e federal e experiência como vice-prefeito de Manaus.
Ainda assim, encontrou no grupo de David um espaço político privilegiado.
Foi eleito vice-prefeito ao lado dele em 2020, comandou a Secretaria Municipal de Infraestrutura e depois recebeu uma das funções de maior confiança de qualquer governo: a chefia da Casa Civil.
Na posse de Rotta no cargo, David fez elogios pouco comuns na política. Disse que o então vice tinha “decência exemplar” e que sua postura lhe dava confiança para continuar apostando nele. Rotta, por sua vez, agradeceu publicamente o “voto de confiança” recebido do prefeito.
Meses depois, David voltaria a chamá-lo de “meu amigo” e diria que a Prefeitura de Manaus havia ganhado muito com sua presença na Casa Civil.
Não era, portanto, uma relação política periférica.
Rotta estava dentro do núcleo.
Quando divergem
É justamente por isso que sua ida para a campanha de Roberto Cidade tem um significado maior.
Na política, mudanças de partido e de alianças são naturais. Grupos se formam e se desfazem, projetos eleitorais mudam e lideranças buscam novos caminhos.
O que chama atenção nos casos de Tadeu e Rotta é o momento em que essas relações começam a se desfazer.
Nos dois casos, a ruptura acontece quando os projetos individuais deixam de encontrar espaço dentro da estratégia política de David Almeida.
Isso não permite afirmar que interesses pessoais foram a causa das decisões — essa intenção pertence apenas aos próprios personagens.
Mas permite levantar uma questão política legítima: quanto pesa a amizade quando ela passa a disputar espaço com um projeto de poder?
Tadeu primeiro
Tadeu recebeu de David uma das maiores oportunidades de sua trajetória política.
Foi indicado a vice-governador sem ter passado anteriormente pelo teste das urnas como candidato. A aposta deu resultado: tornou-se vice de Wilson Lima e passou a ocupar uma posição que o colocou naturalmente entre os nomes relevantes da sucessão estadual.
Ao longo do tempo, porém, seu caminho político se aproximou cada vez mais do governador que inicialmente dividia uma aliança com David e se afastou do amigo que havia patrocinado sua chegada à chapa.
A distância tornou-se pública neste ano.
Em fevereiro, ao comentar a saída de Tadeu de seu partido, David fez questão de relembrar o papel que teve na trajetória do antigo aliado: citou sua nomeação como procurador-geral, a Casa Civil e, sobretudo, a indicação para vice-governador.
A fala revelou algo além de uma disputa partidária.
Mostrou uma relação pessoal transformada em confronto político.
Depois, Rotta
Com Rotta, a história chega agora a um ponto semelhante.
O ex-vice-prefeito chegou a ser tratado no início deste ano como opção do grupo de David para disputar o Senado.
O projeto não avançou.
Depois de ficar fora da disputa e romper publicamente com antigos aliados, Rotta encontrou espaço justamente na campanha do principal adversário de David pelo Governo do Amazonas.
E não entrou pela porta lateral.
Assumiu a coordenação-geral.
A posição coloca um homem que participou durante anos da administração e da articulação política de David dentro do núcleo responsável por tentar derrotá-lo.
É difícil encontrar símbolo mais claro da reorganização atual.
Lealdade política
Tadeu e Rotta não são obrigados a seguir David Almeida por toda a vida política.
Lealdade também não significa submissão permanente. Políticos têm direito de mudar de projeto, de partido e de candidato.
Mas política também é construída sobre confiança.
E confiança ganha peso ainda maior quando relações pessoais se transformam em oportunidades concretas de poder.
É nesse ponto que os dois casos merecem ser observados.
David não manteve com Tadeu apenas uma relação partidária: entregou ao amigo de infância uma indicação que o colocou a um passo do Governo do Estado.
Também não manteve com Rotta uma relação protocolar: dividiu chapa, administração e algumas das posições mais sensíveis de seu governo.
Quando esses personagens passam para o lado adversário, portanto, a discussão ultrapassa a simples matemática eleitoral.
Ela chega ao terreno da lealdade.
Velha questão
A política brasileira está repleta de alianças que duram enquanto os interesses convergem e desaparecem quando os caminhos eleitorais se separam.
O Amazonas não é exceção.
O movimento de Marcos Rotta, depois do caminho percorrido por Tadeu de Souza, apenas torna essa característica mais visível na eleição de 2026.
Para Roberto Cidade, são duas aquisições politicamente valiosas.
Para David Almeida, são duas perdas que atingem muito além da composição partidária: envolvem personagens que estiveram dentro de seu círculo de confiança.
Para quem observa de fora, fica uma pergunta que provavelmente acompanhará a campanha:
na política, a lealdade resiste quando deixa de servir ao projeto individual de cada um?
A resposta talvez não esteja nos discursos.
Está nos movimentos.
Da redação


